O recuo na oferta global e nacional de arroz exige estratégia para garantir a rentabilidade da safra 2026.
O pé no freio do produtor e a realidade do mercado
Quem vive o dia a dia da lavoura sabe que o planejamento não aceita desaforo. No final de 2025, o que vimos foi um cenário que apertou o calo de muita gente que planta arroz. Os preços baixos que acompanharam boa parte do ano passado acabaram desanimando quem estava pronto para colocar a máquina no campo. Não é só uma questão de querer produzir, mas de fazer a conta fechar, já que a margem de lucro ficou tão estreita que qualquer ventania já colocava o resultado no vermelho. E o produtor, que é bicho precavido por natureza, preferiu não arriscar tanto o pescoço dessa vez.
Essa retração que estamos sentindo agora, com o início de 2026 batendo à porta, é reflexo direto desse desestímulo. Os dados que estão saindo das principais entidades de pesquisa mostram que a área destinada à cultura sofreu ajustes pesados. Muita gente optou por migrar para outras culturas ou simplesmente reduziu a intensidade do manejo para não se endividar ainda mais. O problema é que, quando o produtor tira o pé, o reflexo na gôndola e no estoque aparece logo em seguida, criando um ciclo que agora começa a mostrar sua cara mais severa.
Os pesquisadores do Cepea indicam que esse movimento de queda na produção não é um fato isolado aqui do nosso quintal. É algo que está acontecendo lá fora também. Quando a gente olha para o mercado global, a situação é até curiosa, porque vínhamos de quase uma década de crescimento seguido na oferta de arroz. Agora, pela primeira vez em muito tempo, o mundo vai ter que aprender a lidar com menos grão disponível no armazém.
Números que contam a história da safra 2025/26
A Conab já trouxe o veredito em seus últimos levantamentos: a produção brasileira de arroz para este ciclo deve girar em torno de 11,17 milhões de toneladas. Para quem gosta de comparar com o que passou, isso representa um recuo de 12,4% se olharmos para a safra anterior. É muita coisa. Estamos falando de um volume considerável que deixa de entrar no mercado, e isso acontece justamente porque o custo de produção não deu trégua, enquanto o preço de venda ficou patinando por meses a fio.
E tem outro ponto que está tirando o sono de muita gente: o crédito. A restrição no acesso aos recursos financeiros funcionou como um balde de água fria. Sem dinheiro na mão com juros que façam sentido, o produtor não consegue investir em tecnologia de ponta, não consegue comprar o melhor adubo e acaba reduzindo a área plantada para caber no orçamento. O resultado dessa conta é menos saca por hectare e uma oferta total bem menor do que o previsto lá no começo do ano passado.
A redução de mais de 12% na safra nacional é o grito de alerta de um setor que enfrentou margens negativas e falta de apoio financeiro no momento em que mais precisava de liquidez.
Lá fora, o bicho também está pegando. O USDA, que é quem dita o ritmo das informações globais, apontou que a produção mundial de arroz beneficiado deve ficar em 540,4 milhões de toneladas. Parece muito, mas é a primeira queda desde o ciclo de 2015/16. Dos 16 maiores produtores do planeta, 10 estão reduzindo a produção. Ou seja, não somos só nós que estamos sofrendo com o ajuste de margens; o mundo inteiro está recalculando a rota.




