Muito se diz sobre a pecuária e como mitigar os efeitos da atividade agropecuária sobre o meio ambiente e sua biota, assim como o manejo dos rebanhos, das pastagens, as boas práticas aos animais e até sobre a questão de controle sanitário dos rebanhos.

Todos esses pontos são de relevância, mas, exclusivamente, de dentro da porteira. Para uma cadeia produtiva limpa e sustentável, também é preciso levar em consideração as externalidades além, ou seja, ao longo de toda a cadeia produtiva.

A externalidade é um conceito econômico utilizado para entender como a economia e a formação de preços frequentemente deixam de incorporar os impactos sociais, ambientais e sanitários consequentes das atividades produtivas. Dentre elas, os pontos a analisar são a questão ambiental, a logística e transportes e o papel dos frigoríficos na cadeia da pecuária brasileira. Essa é uma maneira de alertar sobre esses impactos que são provocados ao meio ambiente, ao ser humano e até na qualidade do produto final.

A questão de impactos ambientais no Brasil, no que diz respeito a degradação de áreas produtivas, se deve principalmente ao modelo de abertura das áreas e ao manejo das pastagens. Ao longo da história do desenvolvimento da pecuária no Brasil não podemos ignorar a quantidade de floresta que foi desmatada para posterior ocupação com a atividade.

Apesar da taxa de desmatamento da Amazônia Legal ter diminuído significativamente nos últimos anos, segundo Prodes, satélite monitorado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE, ainda não existe um cenário de controle sobre o processo de desmatamento e formação de pastagens para ocupação com a pecuária.

O processo de degradação dos pastos é proveniente da falta de programas de manutenção e controle dos impactos promovidos na fase de abertura e implantação dos pastos. Ao longo do tempo, os solos se desgastam e sofrem impactos físicos (compactação), químicos (desequilíbrio da fertilidade) e biológicos (perdas da microbiologia do solo). Estes somados promovem perdas irreversíveis e que representam um custo de recuperação muito grande.
Como medidas para recuperação e manutenção das pastagens, é possível aumentar o número de cabeças por hectare (lotação e capacidade de suporte dos pastos) ou até implantar o reflorestamento de parte de áreas desmatadas.

Como alternativa há a implementação da Integração Pecuária-Floresta nas propriedades, que diminui os impactos ambientais dos sistemas tradicionais de criação, por meio do favorecimento à restauração ecológica de pastagens degradadas, diversificando a produção, gerando produtos e lucros adicionais.

Este modelo representa o controle das emissões de carbono para a atmosfera por parte do rebanho e contribui para suprir a necessidade de carbono no solo e equilibrar o saldo das emissões na fase de produção da cadeia. Ademais, o sistema implementado pode neutralizar as emissões de gases de efeito estufa desde que o modelo e suas práticas sejam sustentáveis.

Na fase da cadeia que representa a logística e distribuição um dos maiores geradores de impactos negativos, ou seja, externalidade, é promovido pelas condições das estradas e vias precárias de escoamento, além dos estados gerais das estruturas de beneficiamento.

O Brasil é um país que tem como foco poucos modais para o escoamento de suas produções, sendo o principal deles as rodovias. As estradas encontram-se em estados de descontinuidade e inconstância, o que acarreta no aumento do tempo até a chegada nos frigoríficos e no próprio consumidor, quando não há parte do carregamento perdido.

Essa situação impacta diretamente o produtor que muitas vezes tem que investir na logística de escoamento do seu produto e em boas companhias de distribuição ou em distribuição própria. Isso envolve custos adicionais.

A terceira externalidade, a indústria frigorífica, é caracterizada por um número elevado de frigoríficos e com um importante papel na exportação da carne brasileira. Essa mesma indústria é dominada pelo oligopólio de empresas que dominam o mercado e são responsáveis por mais de 80% da carne exportada.

Os frigoríficos manipulam o mercado decidindo quais plantas devem permanecer abertas e quais devem encerrar suas atividades, sempre com a motivação de manter as plantas de maior escala produtiva para baratear o processo. O boi gordo terminado, assim, viaja por mais tempo até chegar nos frigoríficos, já que houve uma redução do número de plantas, entrando em concordância com as consequências da segunda externalidade apresentada.

Segundo o estudo da Imazon de 2017, ‘’ Os frigoríficos vão ajudar a zerar o desmatamento da Amazônia? ’’, 30% dos frigoríficos não assinaram o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com Ministério Público Federal que visa reduzir o desmatamento, promover a regeneração de áreas desmatadas ilegalmente e coibir o trabalho escravo. Sem esse termo, essas empresas estão aptas a comprar de fazendeiros que praticam o desmatamento ilegal.

Os outros 70% fazem parte do boicote ao gado oriundo de áreas que não seguem o protocolo dos termos do acordo, mas estão sujeitas a comprar indiretamente gados provenientes de áreas desmatadas ilegalmente.