MS destina R$ 24 milhões, MT antecipa equipes e Ibama intensifica operação enquanto STF cobra planos de prevenção dos estados.
A conta não fecha para quem depende do Pantanal e viu o bioma queimar nos últimos anos. Depois de um 2025 com queda de 39% na área queimada, o Brasil entrou em 2026 sabendo que o El Niño não vai dar trégua. A resposta veio em bloco. Mato Grosso do Sul destinou R$ 24 milhões para o combate a incêndios no Pantanal, Mato Grosso antecipou o envio de equipes para as regiões de maior risco, e o Ibama já notificou 574 propriedades rurais dentro de uma operação preventiva que alcança sete municípios.
O movimento não é isolado. No STF, o ministro Flávio Dino deu dez dias para a União e os estados da Amazônia Legal e do Pantanal apresentarem um plano detalhado de ações contra incêndios florestais. A decisão saiu depois de o governo de Mato Grosso do Sul decretar estado de emergência ambiental, um reflexo direto das previsões climáticas que apontam para um período seco mais intenso neste ano.
Do lado técnico, a preparação envolve mais do que dinheiro e equipes. O Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) e o Corpo de Bombeiros ampliaram o programa de manejo integrado do fogo, técnica que usa a queima prescrita como ferramenta de prevenção. A ideia é reduzir o material combustível acumulado no solo antes que a seca chegue com força total. O governo estadual também prometeu simplificar o licenciamento para esse tipo de queima controlada, o que deve facilitar a adesão de produtores rurais.
O peso do El Niño na reta final de 2026
Os números do ano passado mostram que a estratégia de prevenção funciona. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, a área queimada no Brasil caiu 39% em 2025, o menor índice em seis anos. O resultado veio de uma combinação de operações do Ibama, treinamento de brigadas voluntárias e maior adesão dos produtores ao manejo do fogo. Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, o programa PSA Brigadas remunerou pecuaristas para atuarem na vigilância e no combate inicial às chamas nas próprias propriedades.
Mas 2026 apresenta um cenário mais desafiador. As projeções do Cemaden indicam que o El Niño deve se intensificar no segundo semestre, com chuvas abaixo da média e temperaturas acima do normal na região central do país. O Pantanal, que já enfrenta um período de estiagem prolongada, está no centro da preocupação. Foi esse quadro que levou Mato Grosso do Sul a decretar emergência ambiental antes mesmo do pico da seca, uma antecipação inédita nos últimos anos.
Em Mato Grosso, a resposta veio com a mobilização antecipada de equipes especializadas para as regiões com maior histórico de queimadas, especialmente na divisa com o Pará e na Baixada Cuiabana. O governo estadual reforçou a integração com o Ibama e o Prevfogo para ampliar a capacidade de resposta rápida. A lógica é clara, quanto mais cedo as equipes estiverem posicionadas, menor o tempo entre a detecção e o combate às chamas.
Prevenção que chega ao bolso do produtor
Quem vive da pecuária no Pantanal sabe que o fogo não destrói só a vegetação. Pastagens que levam anos para se recuperar, cercas que precisam ser refeitas, animais que morrem ou ficam debilitados. O prejuízo material é imenso. Por isso, a prevenção deixou de ser vista como tarefa exclusiva do poder público e passou a integrar o planejamento de muitas fazendas da região.
O manejo integrado do fogo é a principal ferramenta disponível. A técnica consiste em realizar queimas controladas em períodos estratégicos, com autorização dos órgãos ambientais, para eliminar o excesso de capim seco e galhada que servem de combustível para os grandes incêndios. Em Mato Grosso do Sul, o Imasul está simplificando o licenciamento desse tipo de prática para estimular a adesão voluntária dos produtores, uma medida que deve acelerar a regularização de propriedades rurais que querem atuar na prevenção.
Outra frente que avança é o programa PSA Brigadas, que remunera produtores rurais pela atuação em ações de vigilância e combate inicial. A iniciativa, coordenada pelo governo de MS com apoio do Ibama, já conta com dezenas de pecuaristas cadastrados. Na prática, o produtor vira um aliado direto na proteção do bioma e recebe por isso. Um modelo que, se funcionar em escala, pode virar referência para outros estados do arco do desmatamento.
O que está em jogo vai além da próxima safra. O Pantanal sustenta o maior rebanho bovino da região Centro-Oeste em regime extensivo, e qualquer interrupção na atividade produtiva provocada por incêndios de grande porte tem efeito em cadeia. Fecha rodovias, encarece o frete e reduz a oferta de gado para abate. A preparação deste ano, com R$ 24 milhões em MS, equipes em campo desde junho e a cobrança do STF para que União e estados apresentem planos, é um teste de fogo, com o perdão do trocadilho, para o modelo de prevenção que o país tenta consolidar.