Um jacaré dividindo um muçum com dezenas de piranhas. Um canoeiro que filmou um verdadeiro “mar de jacarés” nas águas rasas do Pantanal. As duas cenas, registradas com diferença de dias no início de junho de 2026, correm as redes sociais e reacendem a curiosidade sobre um dos répteis mais icônicos do Brasil.
Não é para menos.
Com até três metros de comprimento e uma população estimada em milhões de indivíduos, o Caiman yacare é dono absoluto dos rios, baías e corixos da maior planície alagável do planeta. Diferente do que muitos pensam, não está nem perto de ser um bicho ameaçado.
Em algumas regiões do Pantanal, os jacarés já são mais numerosos do que a população humana local. Um levantamento de 2025 mostrou que certas áreas da planície concentram mais de 30 jacarés por quilômetro quadrado de corpo d’água. Uma densidade que impressiona até biólogos experientes.
O flagrante que correu o país
No dia 3 de junho, um vídeo mostrava um jacaré dividindo um muçum com um cardume de piranhas. A cena, filmada por Erisvaldo Almeida na região de Porto Jofre, em Mato Grosso, impressiona pela naturalidade com que o réptil divide a refeição com dezenas dos temidos peixes de dentes afiados.
Um canoeiro filmou uma concentração tão grande de jacarés às margens de um corixo que a imagem lembrava um tapete de escamas boiando na água. O vídeo, compartilhado centenas de vezes no WhatsApp e no YouTube, mostra dezenas de jacarés imóveis, de olhos e narinas para fora da água. Uma cena que quem vive no Pantanal conhece bem, mas que impressiona quem vê de fora.
Os dois flagrantes não são raros. Quem navega pelos rios da planície entre junho e setembro, período da seca, encontra os jacarés concentrados nos corpos d’água que restam. É nessa época que a observação da fauna atinge seu ponto alto. A Transpantaneira, rodovia de terra que liga Poconé a Porto Jofre com 120 pontes de madeira em 147 quilômetros, se transforma no maior safári fotográfico a céu aberto do Brasil.
Jacaré-do-pantanal em seu habitat natural nas águas do Pantanal mato-grossense
O que faz do jacaré-do-pantanal um sobrevivente nato
O jacaré-do-pantanal é um réptil da família Alligatoridae, parente próximo do jacaré-de-papo-amarelo e do jacaré-açu amazônico. Os machos adultos chegam a atingir entre 2,5 e 3 metros de comprimento e podem pesar mais de 150 quilos. As fêmeas são menores, raramente ultrapassando 2 metros.
Uma das características mais fascinantes da espécie é a capacidade de regular a própria temperatura. Jacarés são ectotérmicos, dependem do sol para aquecer o corpo, e passam boa parte do dia imóveis, boiando na superfície ou tomando sol nas margens. É por isso que os vídeos mostram os animais tão parados. Eles estão economizando energia enquanto digerem ou esperam o corpo atingir a temperatura ideal para caçar.
A alimentação é variada: peixes, aves, crustáceos, anfíbios e pequenos mamíferos. O muçum dividido com as piranhas é um exemplo típico. O jacaré captura a presa com a mandíbula poderosa e depois a despedaça com movimentos bruscos da cabeça. O que sobra vira banquete dos peixes menores.
O jacaré-do-pantanal também é conhecido por um comportamento curioso. Quando ameaçado, emite um som gutural que ecoa pelas margens dos rios e pode ser ouvido a centenas de metros. Esse ronco funciona como alerta para outros jacarés e como intimidação para predadores.
Mais jacarés do que gente
Estimar quantos jacarés vivem no Pantanal não é tarefa simples, mas os estudos mais recentes apontam para algo entre 3 e 10 milhões de indivíduos. A enorme variação se deve às oscilações do ciclo de cheias e secas. Em anos de seca severa, a mortalidade de filhotes aumenta, e a população se ajusta.
Diferente de outras espécies de crocodilianos ao redor do mundo, muitas ameaçadas de extinção, o jacaré-do-pantanal se beneficiou de décadas de proteção ambiental e do baixo nível de desmatamento no bioma.
O Pantanal é o bioma mais bem preservado do Brasil. Cerca de 80% da sua cobertura vegetal original ainda está de pé. Isso significa que o habitat do jacaré permanece praticamente intacto. A espécie é listada como “pouco preocupante” pela União Internacional para a Conservação da Natureza, um contraste com a situação crítica de muitos crocodilianos na Ásia e na África.
Convivência com a pecuária e o turismo de observação
O jacaré-do-pantanal vive lado a lado com uma das maiores concentrações de gado bovino do país. Estima-se que o Pantanal abrigue cerca de 7 milhões de cabeças de gado em fazendas que ocupam aproximadamente 80% do bioma. Uma convivência que remonta ao século 18, quando as primeiras boiadas chegaram à região.
Conflitos ocasionais acontecem. Jacarés podem atacar bezerros que se aproximam demais das margens, e fazendeiros reclamam da predação de peixes em açudes. Mas, no geral, a coabitação é pacífica. Em muitas fazendas pantaneiras, o jacaré é tratado quase como parte da paisagem. Um vizinho silencioso que divide o pasto alagado e o curral de pedra.
De uns anos para cá, um novo ator entrou nessa relação. O turista.
O ecoturismo no Pantanal cresceu 15% na procura em 2026, segundo dados do setor. A Transpantaneira, com suas pontes de madeira rangendo sob o peso dos veículos, tornou-se rota obrigatória para fotógrafos do mundo inteiro. Hotéis-fazenda oferecem passeios de barco para observação de jacarés, onças-pintadas, ariranhas e tuiuiús, a ave-símbolo do Pantanal.
Em 2026, o bioma foi eleito um dos melhores destinos do Brasil para o ecoturismo. A cidade de Poconé, portal de entrada para a região, viu o movimento de visitantes crescer mais de 20% em relação ao ano anterior.
Entre um safári fotográfico e outro, o que os visitantes levam para casa é a certeza de que o Pantanal ainda é um dos lugares mais selvagens e preservados do planeta. Onde um jacaré pode cruzar o caminho de um boi, dividir o peixe com as piranhas e ainda virar estrela de vídeo viral, sem precisar sair do lugar.
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Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Jornalista e fundador do Agronews, referência em informações sobre o agronegócio brasileiro. Com mais de 15 anos de experiência no setor, acompanha de perto as principais commodities, políticas agrícolas e tendências do mercado rural.