O protagonismo feminino no Show Safra 2026, a sinergia que transforma o campo
Vicente Delgado
27/03/2026 às 11:58
O agro floresce de forma muito mais robusta quando homens e mulheres trabalham em sinergia.
O agronegócio brasileiro vive um momento de maturidade onde a força bruta do campo se alia, cada vez mais, à inteligência estratégica, à governança e ao cuidado com os detalhes. No coração dessa transformação está a mulher. Durante o Show Safra 2026, em Lucas do Rio Verde (MT), o espaço Show Safra Mulher consolida-se não como um ambiente de segregação ou disputa, mas como um palco que celebra a união de forças, comprovando que o campo floresce de forma muito mais robusta quando homens e mulheres trabalham em sinergia.
A sinergia como motor do agronegócio
Historicamente, a mulher sempre esteve presente nos bastidores das propriedades rurais, mas a sua ascensão à mesa de decisões marca uma nova era de eficiência e parceria. Não se trata de uma guerra de gêneros, mas de uma complementaridade essencial para a perpetuidade dos negócios familiares.
Denise Hasse, produtora rural e presidente do Comitê Mulher Agro Detalhes, do Sindicato Rural de Lucas do Rio Verde, resume com precisão essa dinâmica harmoniosa: “Eu falo que o segredo do sucesso de uma propriedade, ou de qualquer negócio, é quando os dois perfis se unem. […] os dois se alinham para crescer, para deixar pra próxima geração uma propriedade melhor, mais eficaz, com números melhor“. Ela ainda desmistifica antigas barreiras ao afirmar que o setor acolhe essa integração: “Eu falo que hoje o agro, ele ainda é masculino pela quantidade, mas ele não é machista. O agro precisa da estratégia, da visão da mulher“.
Resolução de gargalos administrativos e operações complexas
Na prática, a presença feminina tem sido a chave para destravar gargalos administrativos e elevar o padrão operacional das fazendas. A mulher traz para a gestão um olhar apurado para a sustentabilidade (ESG), a governança e o bem-estar das equipes. Segundo Denise, a gestora rural não foca apenas na produção isolada; ela cuida do solo para as gerações futuras e se atenta à qualidade de vida das famílias dos colaboradores: “A mulher que ela tá na propriedade, tu vê a propriedade diferente, até uma porteira sem tá estragada“. Enfrentar a alta complexidade das operações diárias também faz parte dessa rotina.
Tânia Maria Vendruscolo, produtora rural e coordenadora do movimento AgroLigadas, é o retrato dessa resiliência. Tendo chegado a Lucas do Rio Verde em 1983, uma época sem energia elétrica e infraestrutura, hoje ela e sua família administram cerca de 8.000 hectares de soja e algodão, lidando com os altos custos de produção e juros elevados que desafiam o setor. Diante dessas adversidades, Tânia destaca a natureza inabalável das produtoras: “Acredito que as mulheres têm dentro delas uma força muito intensa, que quando o problema se apresenta elas buscam resolver[…], são tipo uma fênix, elas ressurgem“, comenta.
A delicada teia da sucessão familiar
Talvez um dos maiores desafios estruturais do agronegócio hoje seja a sucessão familiar, e é exatamente neste ponto que as mulheres exercem um papel de valor inestimável. A transição de gerações frequentemente esbarra no apego dos fundadores e nas novas ideias dos filhos, exigindo uma escuta ativa e empatia que as mulheres dominam.
Denise pontua essa dor do setor de forma brilhante: “Passar o bastão é muito fácil na parte jurídica, na parte contábil, mas na parte comportamental não é tão fácil assim. E a mulher, ela tem essa habilidade e sensibilidade de fazer com que isso aconteça de uma forma mais flexível, mais harmoniosa, com menos conflito“. Ela atua como uma verdadeira mentora interna, traduzindo o respeito à hierarquia do pai e o espaço de inovação do filho.
Tânia vive essa realidade na prática. Aos 63 anos, ao lado do marido de 74, ela conduziu a passagem da gestão operacional para os filhos de forma estruturada e madura. “A sucessão ela tem que ser assim, né? Ela tem que acontecer aos poucos e a gente tem que confiar. Porque não vamos estar aqui para sempre“.
O Show Safra Mulher 2026 reflete perfeitamente esse movimento de capacitação, acolhimento e preparo técnico para temas áridos como a reforma tributária. O evento reforça que, na gestão moderna, não há espaço para o isolamento. Como bem lembra Tânia: “Ninguém faz nada sozinho. Aprendi isso com a minha mãe e levo comigo em tudo o que faço“, completa.
A mensagem que ecoa das lavouras de Lucas do Rio Verde para o Brasil é clara: onde mulheres e homens se encontram com respeito, dividindo responsabilidades e somando suas melhores habilidades, o agro não apenas sobrevive às crises, ele floresce, inova e se perpetua.