A trajetória deste visionário empreendedor mostra como a resiliência e a visão estratégica transformaram uma crise devastadora em liderança tecnológica mundial.
Quem vive da terra sabe que o clima e as pragas não mandam aviso prévio antes de levar o lucro de uma safra inteira embora. Entre 2004 e 2005 o produtor rural brasileiro sentiu isso na pele enfrentando secas extremamente severas e a devastação impiedosa da ferrugem asiática. Com as lavouras dizimadas e a rentabilidade derretendo porteira à dentro, o agricultor precisou segurar o caixa e cortar todos os investimentos possíveis.

O reflexo desse cenário bateu forte e rápido na porta das indústrias de base. Quando o produtor para de comprar trator e plantadeira a cadeia inteira sangra junto.
E para entender tudo isso e conhecer de perto essa história de superação e sucesso, viajamos até o município gaúcho de Não-Me-Toque, onde fomos recebidos por Cíntia Dal Vesco, gerente de marketing da Stara, gigante fabricante de máquinas agrícolas e tecnologia para o campo.

A origem deste legado de superação
Foi exatamente esse o cenário adverso que quase colocou um ponto final na história da Stara. A empresa localizada no interior gaúcho viu seu quadro de funcionários despencar de 880 para apenas 280 colaboradores operando à beira do colapso total.
Mas para entender a virada de jogo dessa gigante precisamos voltar um pouco no tempo e olhar para quem estava nos bastidores construindo essa estrutura. A fundação da empresa em 1960 carrega o peso da imigração da família holandesa Stapelbroek fugindo dos escombros da Segunda Guerra Mundial para chegar a morar em casas de chão batido no Brasil. Essa resiliência estava no sangue e foi testada na crise de 1982 quando o filho do fundador conhecido como “Seu Chico” colocou todas as economias da vida na mesa para evitar a quebra dos negócios.

Em 19 de abril de 1949, Johannes Stapelbroek desembarcou no Porto de Santos com a família e se estabeleceu em Holambra, interior de São Paulo, região formada por imigrantes holandeses dedicados à agricultura. Stara Incentivados por padres holandeses e em busca de melhores oportunidades, a família mudou-se para Não-Me-Toque, no Rio Grande do Sul, onde Johannes Bernardus Stapelbroek, em sociedade com Gerrit Jan Rauwers, fundou uma pequena ferraria, a Stapelbroek, Rauwers & Cia Ltda, dedicada à montagem e manutenção de máquinas e implementos agrícolas importados da Europa que chegavam à região para impulsionar a agricultura em escala comercial.

Com o fim dessa sociedade, em 29 de agosto de 1960 nasceu a Stapelbroek & Cia Ltda, a Stara, uma pequena oficina onde Johannes Bernardus Stapelbroek e seus filhos Johannes, Franciscus (Seu Chico) e Harrie consertavam e adaptavam máquinas agrícolas LinkedIn, lançando as bases do que se tornaria, décadas mais tarde, a maior fabricante de máquinas agrícolas da América Latina.
Um forasteiro visionário
A verdadeira revolução na gestão no entanto viria pelas mãos de um forasteiro improvável. Gilson Trennepohl chegou à cidade de Não-Me-Toque carregando apenas duas camisas na mala e o sonho de ser radialista. Menino de origem muito pobre ele já tinha ganhado a vida como engraxate e precisou trabalhar servindo mesas como garçom apenas para garantir o prato de comida do dia.

E foi justamente trabalhando como garçom que ele cruzou o caminho de Dona Susana herdeira da família fundadora. O relacionamento dos dois floresceu e Gilson casou-se com Susana, logo após pediu uma oportunidade na fábrica. Diferente do que muitos pensariam ele não ganhou atalhos para a diretoria. Ele começou lá embaixo como demonstrador viajando o Brasil inteiro de caminhão para fazer testes das máquinas nas fazendas sentindo o calor do motor e ouvindo as dores reais de quem estava no campo tentando fechar a conta do custo de produção.
Essa bagagem extremamente prática acelerou sua ascensão até a diretoria comercial trazendo uma visão muito arrojada de mercado focada da porteira para fora.
O peso da crise e a recusa em entregar o negócio
Voltando ao fatídico biênio de 2004 e 2005 o desespero tomou conta dos acionistas da Stara. Uma multinacional gigantesca colocou uma proposta de compra multimilionária na mesa. A oferta era daquelas que garantem o futuro financeiro de várias gerações e parecia a única saída lógica para uma empresa sufocada pela falta de liquidez no mercado agrícola. Todos os acionistas queriam assinar os papéis deslumbrados com o dinheiro.
Todos exceto Gilson.
Ele bateu de frente com o conselho tentando barrar a transação a todo custo. A retaliação veio rápido sendo ele demitido no dia 22 de dezembro de 2005 por atrapalhar a negociação. Qualquer um teria jogado a toalha e ido para casa.

Mas no início de 2006 Gilson e Susana tomaram uma decisão heroica que contrariou todas as lógicas do mercado. Eles se desfizeram de seus bens pessoais trocaram terras preciosas por ações com os irmãos de Susana e juntaram tudo o que tinham para assumir 50,5% do controle da fábrica conseguindo barrar a venda. Eles assumiram uma dívida brutal para salvar o legado.
Sobre esse momento de tensão profunda Cíntia Dal Vesco que atua como gerente de marketing da companhia há mais de duas décadas resume perfeitamente a situação lembrando do espírito da decisão e reafirmando as palavras de Gilson”Nós não vamos vender, não vai ser vendido. É isso aqui é nossa vida, o nosso amor, não é um negócio só, não é pelo dinheiro, é algo muito maior“.
A tecnologia como ferramenta de sobrevivência
Sob a liderança de Gilson e da família a nova fase não era apenas sobre sobreviver mas sobre inovar com uma agressividade impressionante. A grande sacada foi perceber que o produtor rural precisava de precisão milimétrica para não desperdiçar um grama sequer de semente ou fertilizante. Em um momento de margens cada vez mais espremidas pelos custos dos insumos quem erra a dose no plantio paga a conta com juros na hora da colheita.








