Ensaios genéticos demonstram produtividade de até 150 sacas de soja por hectare
Vicente Delgado
17/03/2026 às 17:55
As mãos que domesticaram o Cerrado agora miram em entregar sementes com potencial de 150 sacas de soja por hectare. A história da FT Sementes prova que ouvir a voz da lavoura destrava os limites para a produtividade no campo.
Caminhando pelos corredores da Expodireto Cotrijal, no Rio Grande do Sul, a gente sente o peso das últimas safras no ombro do produtor. Mas ali, entre máquinas e estandes, o que mais surpreende é o brilho nos olhos de quem não desiste. É nessa pisada que encontramos Francisco Terasawa, uma lenda viva do nosso agro. Ele viu esse país sair de importador de alimentos à potência mundial de produção agrícola, e tudo começou com uma coragem rara, ousadia e perseverança.
O pesquisador que deixou seu porto seguro para desbravar o Cerrado
Anos 70. Cerrado era terra bruta, ácida. Francisco estava bem na pesquisa pública em Pelotas, mas o sangue de agricultor gritava mais forte. Ele sabia que o Brasil precisava de variedades próprias, aclimatadas. Em 1972, fundou a FT Sementes. Sem lei de proteção de cultivares, foi um salto no escuro. Os amigos disseram que ele estava louco. “Os colegas da época… todos foram contrários que eu saísse“, ele me contou com aquele sorriso de quem sabe que acertou. “Mas a minha vontade era tanta de criar variedade“.
O resultado? A FT Cristalina em 1973, a “rainha dos cerrados“, que abriu as portas do Centro-Oeste para a soja.
Quem folheia a publicação “A saga da soja: de 1050 a.C. a 2050 d.C”, da Embrapa, entende logo de cara que a nossa principal cultura apanhou muito antes de virar esse motor econômico. A primeira tentativa de plantio foi lá na Bahia, em 1882, com sementes importadas dos Estados Unidos, mas o clima quente não perdoou e o resultado na lavoura foi frustrante. A oleaginosa só encontrou um ambiente favorável quando desceu para o Rio Grande do Sul, com os primeiros testes em 1914 e o engate comercial a partir de 1924. Mesmo ganhando relevância de mercado na década de 1960, o grande gargalo continuava sendo geográfico: até o final dos anos 1970, a cultura só entregava rentabilidade em climas temperados e subtropicais, o que amarrava a nossa produção às latitudes do Sul.
Expandir as lavouras rumo ao Centro-Oeste parecia uma aposta arriscada demais, pois o produtor brasileiro tinha que usar as cultivares importadas dos Estados Unidos que eram adaptadas apenas para a região Sul do Brasil. Foi preciso muita pesquisa de ponta e tropicalização da genética para quebrar essa barreira climática, garantindo liquidez e viabilizando o custo de produção no Cerrado. No quadro abaixo, você confere exatamente quais foram as cultivares da Embrapa que encararam esse desafio de frente e construíram a histórica expansão da soja na região Centro-Norte do nosso país, com destaque justamente para FT Cristalina.
Período
Marco histórico
Cultivares
Origem
Primeiro ancestral de Glycine encontrado no continente australiano
Soja selvagem
2838 a.C.
Soja selvagem nativa da China — ancestral de Glycine max, a soja cultivada atualmente
Glycine soja
1924–1950
Introdução comercial de soja no Brasil, com cultivares trazidas dos EUA
Pelicano
1960
Adaptação da cultura com cultivares introduzidas dos EUA
DavisSanta Rosa
1970–1980
Expansão no Centro-Norte e primeiras cultivares genuinamente brasileiras, adaptadas ao Cerrado
★ Marco: surgimento das primeiras cultivares desenvolvidas no Brasil
★ FT CristalinaUFV-1DokoBR 9 (Savana)
1990
Foco no aprimoramento da sanidade — resistência a nematoides de cisto e galhas
MG BR 46 ConquistaBRSMT PintadoBRSMG 68 Vencedora
2000
Crescimento indeterminado, 2ª safra e chegada da transgenia RR (Roundup Ready)
BRS Valiosa RRBRS 284
2010
Valorização da soja convencional em contraponto com o avanço da soja RR
BRS 8381BRS 7380RR
2020
Incremento permanente de qualidade, precocidade e competitividade — chegada da soja Bt (tecnologia IPRO)
BRS 5980IPROBRS 7881IPRO
Da lona preta ao sucesso empresarial, sem perder a humildade
Não é só sobre números e sacas por hectare, sabe? É sobre gente. O desbravamento do Cerrado foi duro. Famílias inteiras vivendo embaixo de lona preta, apostando tudo o que tinham. Francisco lembra disso com emoção. A genética que ele desenvolveu não foi só semente, foi a boia de salvação para muitos que estavam quase desistindo. Ele se emociona ao contar que “uma grande parte [de produtores]… me abraça, chora no ombro e agradece… Eles dizem: ‘Eu tava para voltar quebrado pro Rio Grande do Sul, plantei a cristalina e hoje vê, hoje é proprietário de uma grande fazenda, tem trator, tem colhedeira e tem avião…“. Esse é o lado humano do custo de produção que a gente não pode esquecer.
Por trás dos números superlativos da soja, existem vidas, sacrifícios e muita resiliência. O Brasil foi, em grande parte, desbravado por produtores do Sul do país (a maioria gaúchos), catarinenses e paranaenses, que deixaram o conforto de suas terras natais para apostar no desconhecido do Centro-Oeste e, mais recentemente, no Norte do Brasil.
Seu Francisco testemunhou de perto o sofrimento e a garra desses pioneiros. Ele recorda com emoção das famílias que viviam por anos “embaixo de lona preta“, enfrentando safras perdidas e a ameaça constante da falência. Foi a genética desenvolvida pela FT Sementes que, muitas vezes, representou a salvação dessas famílias. O agricultor brasileiro, e em especial o gaúcho, é definido por Francisco como alguém de uma “persistência fora do comum“, que “apanha e não desiste“.
A sucessão familiar que mantém os pés firmes no barro
Hoje, o legado da FT Sementes continua com Maurício Terasawa. E não foi imposto, foi cultivado. Esse jovem empresário e pesquisador já fazia cruzamento de soja aos 10 anos. Mas a maior lição que ele aprendeu com o pai não foi sobre cruzamento genético, foi sobre humildade.
Maurício revela que o maior aprendizado que seu pai lhe ensinou foi “Aprender com o produtor e saber escutar o produtor, porque a voz que vem dele, que tá o dia inteiro lá no campo, é a voz da verdade.”. É essa escuta ativa “porteira para dentro” que guia a pesquisa para resolver os problemas reais da lavoura, como seja seca, pragas ou nematoides, um desafio crescente que pode causar prejuízos bilionários.
A Inteligência Artificial encurtou o caminho para as 150 sacas por hectares
O futuro da FT não tem limites. Maurício usou a expertise dos estudos nos EUA e uniu biotecnologia com Inteligência Artificial. Se antes demorava 12 anos para lançar uma variedade, hoje leva 3. E os resultados experimentais são assombrosos: eles já bateram 150 sacas por hectare em alguns ensaios. O produtor logo vai ver essas médias comerciais. “Hoje nós não conhecemos o limite da produtividade da soja“, afirma Maurício com otimismo.
O portfólio moderno da FT Sementes foca no manejo integral, com materiais tolerantes a chuva na colheita, raízes fundas para buscar água e vencer o alumínio, e um pacote robusto para múltiplas raças de nematoides (cisto, galha, pratylenchus), além de opções convencionais e Intacta RR2 Pro.
Um legado que não para, assim como o Agro
A FT Sementes viveu altos e baixos, mas voltou com força baseada no que tem de mais precioso: o legado e a confiança. Eles não vendem sementes, eles semeiam confiança.
A união da história de Francisco, que “domesticou” o Cerrado e construiu o alicerce do nosso agronegócio, aliada à visão de futuro arrojada e biotecnológica de Maurício, é a síntese da agricultura brasileira. Onde o agro chega, a realidade muda: a riqueza aparece, a educação floresce e a infraestrutura se estabelece. Com raízes fincadas na tradição e os olhos voltados para o futuro, e da máxima produtividade, a FT Sementes e a família Terasawa provam que o campo é feito de gente, de persistência e de muita paixão. E, assim como o produtor brasileiro que se reinventa a cada desafio climático, esse setor não para. O agro brasileiro tem muito chão pela frente e a FT está lá para semear esse futuro.