Esquecidas no mar por 200 anos, esse rebanho de cabras desafiou a morte em uma ilha sem água doce e o ‘tesouro’ oculto em seu DNA pode dar origem a uma “nova raça” extremamente resistente as secas mais severas do sertão nordestino. Esse mistério esta prestes a ser revelado pela ciência.
A Ilha de Santa Bárbara, no Arquipélago de Abrolhos, tem apenas 1,5 km de extensão. Não há rios. Não há lençóis freáticos. Em tese, é um cenário onde a sobrevivência de mamíferos de grande porte seria impossível sem intervenção humana. Mas a natureza, teimosa como ela só, provou o contrário.
Durante mais de dois séculos, um rebanho de cabras não apenas viveu ali, mas prosperou em total isolamento. Agora, cientistas da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) estão debruçados sobre o que pode ser uma das descobertas mais promissoras para a pecuária do semiárido: um “tesouro genético” forjado pela sede e pelo tempo.
Um “delivery” colonial que deu errado (ou muito certo)
Para entender esse mistério, é preciso voltar no tempo. Essas cabras não são nativas da ilha; elas chegaram lá de carona com navegadores europeus ainda no período colonial. A estratégia era comum na época: soltar animais em ilhas remotas para garantir uma reserva de “carne viva” e fresca para as tripulações em futuras expedições.
As Naus partiram (grandes embarcações da Era dos Descobrimentos, robustas e ideais para longas viagens), os séculos passaram, mas as cabras ficaram. E o que deveria ser apenas um estoque de comida acabou se tornando um experimento evolutivo natural.
Sem acesso a fontes de água doce, os animais tiveram que se virar com o que a geografia oferecia. A ilha possui um “cerrado insular“, rico em cactos, gramíneas e plantas suculentas. Foi dessa vegetação, típica de locais áridos, que elas tiraram a hidratação necessária para não morrer.
Mas comer cacto não explica tudo. Para os pesquisadores, a chave desse sucesso improvável está invisível a olho nu. Segundo Ronaldo Vasconcelos, pesquisador e professor de Zootecnia da UESB, deve haver um componente genético que permitiu essa sobrevivência extrema, algo que a ciência agora corre para confirmar.
Operação de resgate: Do Mar ao Laboratório
A virada nessa história aconteceu recentemente. Em 2025, uma força-tarefa envolvendo o ICMBio, a Marinha do Brasil e a Embrapa organizou a retirada de 21 animais da ilha para levá-los ao continente.
O motivo não foi apenas curiosidade científica. Existe um Plano de Manejo instituído em 2023 para proteger a ilha, garantindo a recuperação da flora local e o equilíbrio ecológico, o que exigia a remoção dos animais. Foi aí que a UESB entrou em cena, recebendo as cabras em Itapetinga para quarentena e estudo.
Ao chegarem na universidade, as cabras começaram a revelar seus segredos. E os dados preliminares deixaram a equipe de queixo caído. Para transformar essa curiosidade biológica em ciência aplicada, a equipe da UESB mergulhou em um trabalho de “alfaiataria genética“, medindo cada detalhe dos animais, da curvatura dos chifres à estrutura do úbere.
O professor Ronaldo Vasconcelos, do curso de Zootecnia e um dos líderes da pesquisa, alerta que oficializar esses animais como uma nova raça exige cautela e tempo. Segundo ele, a raça tem um padrão bem definido e a uniformidade visual que vemos hoje precisa provar sua estabilidade biológica no longo prazo: “Não basta ter as características agora, elas precisam se perpetuar na descendência“. É um processo rigoroso onde, nas palavras do pesquisador, tudo é “medido milimetricamente, porque essas características, sendo universais, definem o animal com um padrão“, passo essencial para que, no futuro, essa linhagem possa ser trabalhada comercialmente.
Pequenas e inabaláveis
A primeira coisa que chama a atenção é o tamanho. Elas são pequenas. O professor Ronaldo explica que a competição por comida e o espaço limitado da ilha provavelmente forçaram essa adaptação morfológica ao longo das gerações.
Você esperaria que animais retirados de seu habitat, colocados em um navio e depois em caminhões, sofressem um estresse absurdo. Muitas fêmeas chegaram prenhas. Em situações normais de estresse, o aborto seria uma consequência provável. Não para as cabras de Abrolhos.
“A maioria das cabras que vieram paridas tiveram partos gemelares“, destaca o professor Ronaldo. “O animal só potencializa a reprodução quando o ambiente favorece. É um dado muito interessante“.+
Além de não perderem os filhotes, elas mostraram uma habilidade materna que o pesquisador classificou como “espetacular“, cuidando das crias e mantendo a produção de leite mesmo após toda a turbulência da viagem.
O Futuro: A revolução pode vir do DNA
A maioria das fêmeas não apenas manteve a gestação, como teve partos de gêmeos logo após a chegada, um indicador claro de vitalidade. “O animal só potencializa a reprodução quando o ambiente favorece. É um dado muito interessante“, ressalta o professor, sugerindo que a seleção natural em Abrolhos forjou um rebanho geneticamente programado para garantir a sobrevivência da espécie, custe o que custar.
A pergunta de um milhão de reais é: como isso vira produto? Como isso chega na mesa ou no bolso do produtor?
Ainda não se pode chamar oficialmente de “nova raça“. Para isso, as características precisam se provar estáveis nas próximas gerações. Mas o potencial é inegável. O rebanho apresenta um perfil bastante uniforme, o que facilita a caracterização futura.
O “pulo do gato”, ou da cabra, nesse caso, está no sequenciamento genético. A hipótese é que esses animais carregam genes específicos de eficiência hídrica e resistência ao estresse.
Se confirmado, o plano é cruzar essas “sobreviventes de elite” com rebanhos comerciais do continente. A ideia é transferir essa resistência rústica para animais de produção, criando linhagens capazes de suportar as secas cada vez mais severas do sertão nordestino.
Para o pequeno produtor rural, que muitas vezes vê seu rebanho dizimado pela falta de água, a genética vinda de Abrolhos pode significar a diferença entre a falência e a sobrevivência. Como resume a equipe da UESB, trata-se de uma jornada de conhecimento que vai “do mar ao sertão“, transformando uma curiosidade histórica em uma ferramenta vital para a segurança alimentar.
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Abrolhos bahia Cabra curiosidades
Escrito por
Vicente Delgado
Especialista em notícias e análises do mercado agropecuário.