A primeira semana de outubro começa sob forte impacto político e financeiro no Brasil, desenhando um novo cenário para os mercados de commodities e câmbio. A apuração das urnas no primeiro turno da eleição presidencial, que confirmou Flávio Bolsonaro com 2% de vantagem sobre Lula e desenhou uma bancada de centro-direita amplamente fortalecida no Congresso Nacional, deflagrou uma onda de otimismo nos mercados internacionais: os papéis de empresas brasileiras negociados no exterior saltam 11% e o dólar sofre um recuo histórico de 4,48%, rompendo o piso e trabalhando cotado a R$ 4,98.
Na Bolsa de Chicago (CBOT), o início da semana é de alívio e correção técnica. Após as sucessivas perdas da semana anterior, os contratos futuros de soja e milho amanhecem no campo positivo, recuperando cerca de 10 pontos nas telas principais. No cenário internacional, a energia segue sustentada acima dos US$ 102 com o impasse militar em Ormuz e no Mar Negro, enquanto no interior do país o produtor recalcula as margens da saca em reais diante da derrocada cambial.
Abaixo, detalho os fundamentos que comandam a abertura desta segunda-feira direto da nossa redação em Cuiabá.
Mercado Financeiro: Primeiro turno derruba o dólar a R$ 4,98 e ADRs sobem 11%
O grande catalisador dos negócios no início desta semana vem do ambiente político doméstico. A consolidação dos resultados do primeiro turno presidencial gerou uma reação imediata de compra de ativos brasileiros nas mesas de operação globais:
Recuo Expressivo do Dólar: A moeda norte-americana despenca 4,48% e opera cotada a R$ 4,98, perforando a barreira psicológica dos R$ 5,00 em um dos movimentos intradiários mais fortes do ano.
Avanço no Exterior: As ações de companhias brasileiras negociadas nas bolsas internacionais (ADRs) registram altas expressivas de 11%, refletindo o apetite do investidor institucional estrangeiro.
A leitura do mercado apoia-se em dois eixos fundamentais: a dianteira de Flávio Bolsonaro por dois pontos percentuais na largada da disputa final e, sobretudo, a conformação de um Congresso Nacional com maioria de centro-direita expressiva, reduzindo o risco fiscal percebido e destravando fluxo de capital estrangeiro para o real.
Para a formação de preços das commodities agrícolas, essa queda abrupta do câmbio altera de forma direta a paridade de exportação, retirando suporte nominal em reais da saca de soja e milho no porto e nas praças do interior.
Complexo Soja: Recuperação técnica na CBOT após perdas da semana passada
Na Bolsa de Chicago (CBOT), a oleaginosa abre a segunda-feira em movimento firme de correção de posições vendidas, recompondo parte do terreno perdido na esteira da frustração com os acordos comerciais entre Estados Unidos e China.
As cotações trabalham com recuperação consistente nas duas principais telas:
Soja Novembro/26 (safra disponível dos EUA): Registra valorização de 9,75 pontos, cotada a US$ 12,88 por bushel, ainda buscando fôlego para retestar o patamar de US$ 13,00 abandonado na semana anterior.
Soja Março/27 (safra brasileira): Avança 10 pontos, operando a US$ 13,14 por bushel, tentando reconstruir os suportes rompidos recentemente.
Os fundos de investimento mantêm a atenção dividida entre o ritmo de colheita no Meio-Oeste norte-americano, os números semanais de demanda internacional pelo grão dos EUA e o ritmo de semeadura na América do Sul.
Milho e Trigo: Cereais acompanham fôlego comprador
O milho acompanha a trajetória de alta da soja na abertura da CBOT, operando em terreno positivo e corrigindo as fortes quedas acumuladas nos últimos dias de setembro.
O complexo cerealífero calibra suas posições de olho no avanço das colheitadeiras norte-americanas e aguarda novos dados consolidados de exportação, mantendo-se amparado pelo custo elevado da energia no cenário global. O trigo também segue atento aos desdobramentos de oferta no leste europeu.
O front macro: Brent firme a US$ 102,64 com tensões no Mar Negro e Ormuz
No setor de energia, o mercado internacional de combustíveis segue operando em patamares elevados. O barril de petróleo tipo Brent registra cotação firme a US$ 102,64, refletindo a persistência do impasse geopolítico.
Tanto na bacia do Mar Negro (com a continuidade dos combates entre Rússia e Ucrânia) quanto no Estreito de Ormuz (com os atritos militares envolvendo os Estados Unidos e o Irã), os canais diplomáticos permanecem inoperantes. A sustentação do petróleo confortavelmente acima dos US$ 100 mantém a matriz de custos de frete internacional e transporte encarecida, sustentando custos industriais em patamares elevados para a safra de grãos.
América do Sul: O choque do câmbio na formação de preços e o ritmo do plantio
No Brasil, o produtor rural inicia a semana diante de uma dinâmica comercial totalmente recalibrada. Embora Chicago amanheça no azul, a forte queda do dólar para R$ 4,98 comprime a receita em reais, neutralizando o efeito positivo das cotações em bolsa na formação dos preços físicos de balcão.
No campo agronômico, as plantadeiras da safra 2026/27 continuam avançando de maneira cadenciada em Mato Grosso e nas demais regiões produtoras, com os agricultores condicionando o ritmo da semeadura à regularidade e à distribuição das precipitações pluviométricas. A expectativa de umidade uniforme nas próximas semanas será o balizador crucial para a aceleração dos trabalhos de sequeiro.
Resumo Executivo para o seu radar hoje:
Recuperação em Chicago: Soja sobe 9,75 pontos em Nov/26 (US$ 12,88) e 10 pontos em Mar/27 (US$ 13,14); milho acompanha o movimento altista.
Eleição Mexe com o Mercado: Primeiro turno confirma Flávio Bolsonaro 2% à frente e desenha Congresso com bancada de direita mais ampla; ADRs brasileiras no exterior saltam 11%.
Queda Histórica do Dólar: Moeda norte-americana despenca 4,48% e opera a R$ 4,98, pressionando para baixo a formação dos preços dos grãos em reais.
Petróleo Sustentado: Brent opera a US$ 102,64 mantido pelas tensões militares não resolvidas em Ormuz e no Mar Negro.
Plantio sob Avaliação: Produtor brasileiro monitora o retorno das chuvas para acelerar o plantio da safra 26/27 e recalibra a margem física com o dólar abaixo de R$ 5,00.
O início da semana traz um choque relevante na equação da comercialização agrícola: a recuperação técnica de Chicago não é suficiente para neutralizar a perda de paridade imposta pelo dólar a R$ 4,98. Para a gestão financeira em Mato Grosso, o momento exige frieza: enquanto a liquidação da safra disponível perde atratividade em moeda nacional, a expressiva valorização do real abre uma janela oportuna para negociar parcelas pendentes de insumos e maquinários indexados à moeda americana. Seguiremos acompanhando as atualizações de mercado ao longo do dia no Agronews.
Por Luiz Cunha – Consultor de mercado físico de grãos e fertilizantes
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Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Editor-Chefe e Fundador24+ anos de experiência
Jornalista e fundador do Agronews, atua desde 2002 em produção audiovisual e cobertura do agronegócio brasileiro, com foco em commodities, política agrícola, pecuária e eventos do setor.