Doença de Newcastle é confirmada em granja com 6 mil perus no Brasil
Foco identificado em Santa Catarina leva à interdição da propriedade, abate sanitário das aves e monitoramento de 133 granjas. Governo busca evitar que as restrições comerciais atinjam toda a avicultura brasileira.
O Brasil voltou a enfrentar um alerta sanitário na avicultura após a confirmação de um foco da doença de Newcastle em uma granja comercial com aproximadamente 6 mil perus de corte, localizada em Nova Itaberaba, no oeste de Santa Catarina. O diagnóstico foi confirmado no domingo, 18 de outubro de 2026, pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), depois de uma investigação que envolveu análises laboratoriais e ações de vigilância epidemiológica.
Um detalhe chama a atenção: as aves não apresentavam sintomas clínicos aparentes no momento da investigação. Foi a vigilância sanitária, e não um episódio de mortalidade em massa, que permitiu identificar a presença do vírus. Segundo o governo federal, nenhum dos perus da propriedade havia sido encaminhado para produção de carne destinada ao consumo.
A descoberta levou à interdição imediata do estabelecimento e à suspensão da movimentação de animais. As medidas sanitárias incluem o abate de todo o plantel e a desinfecção das instalações, enquanto equipes oficiais investigam a possibilidade de circulação do agente infeccioso em outras propriedades da região.
Como a doença foi descoberta mesmo sem sintomas nas aves
A investigação começou com a coleta de amostras em 21 de setembro, dentro das atividades de vigilância ativa da defesa agropecuária. Em 14 de outubro, os resultados iniciais indicaram a necessidade de exames complementares. A confirmação definitiva ocorreu quatro dias depois, em análises conduzidas pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo (LFDA-SP), reconhecido internacionalmente como laboratório de referência para a doença.
Esse intervalo revela uma característica importante do sistema de vigilância: a ausência de sinais visíveis não exclui a circulação de um agente infeccioso. Por isso, a identificação laboratorial tem papel decisivo, inclusive em estabelecimentos onde não há mortalidade anormal.
A doença de Newcastle é causada por determinadas variantes virulentas do paramixovírus aviário tipo 1 (APMV-1). A infecção pode atingir aves domésticas e silvestres, incluindo galinhas, perus e outras espécies. Conforme a virulência do agente e a suscetibilidade dos animais, podem surgir problemas respiratórios, alterações neurológicas, diarreia, redução da produção e mortalidade elevada.
A transmissão pode ocorrer pelo contato entre aves infectadas e suscetíveis, além da exposição a secreções, excreções e materiais contaminados. Equipamentos, veículos, roupas e calçados também representam possíveis vias indiretas de disseminação quando não há procedimentos adequados de biosseguridade.
Não existe tratamento específico capaz de eliminar o vírus de um plantel infectado. O enfrentamento depende principalmente de prevenção, vigilância, vacinação quando prevista nos programas sanitários e medidas oficiais de contenção.
Granja será esvaziada e outras 133 propriedades entram em vigilância
A confirmação transformou uma investigação localizada em uma operação regional de defesa agropecuária.
O Mapa e o Serviço Veterinário Oficial de Santa Catarina estabeleceram uma área de monitoramento que abrange Nova Itaberaba, Coronel Freitas, Nova Erechim e Águas Frias. Aproximadamente 133 propriedades serão acompanhadas pelas equipes técnicas, com avaliações clínicas e coleta de material para diagnóstico laboratorial.
Na granja onde o vírus foi identificado, o protocolo prevê a eliminação sanitária das aves, seguida de limpeza e desinfecção. A medida busca interromper a circulação do agente infeccioso antes que ele alcance outros estabelecimentos. A confirmação do foco, portanto, não significa que as demais granjas da região estejam infectadas.
A movimentação de aves na propriedade atingida permanece suspensa. Nas demais unidades, as medidas dependem da avaliação das autoridades sanitárias. Em comunicado oficial de 19 de outubro, o ministério esclareceu que não havia determinação de recolhimento de produtos nem de devolução de animais já expedidos por outras granjas da área monitorada.
Durante coletiva em Brasília, o ministro da Agricultura, André de Paula, afirmou: “Queria destacar a forma transparente, eficiente e célere com que as ações decorrentes dessa suspeita inicial e, agora, da confirmação ocorreram por parte da nossa defesa agropecuária.”
O que acontece com as exportações e o consumo de carne de aves
As consequências da doença de Newcastle ultrapassam os limites da propriedade interditada. Mesmo quando um foco é identificado em um único estabelecimento, a ocorrência pode provocar restrições às exportações de produtos avícolas, conforme as exigências sanitárias de cada país comprador.
O governo brasileiro iniciou a comunicação aos parceiros comerciais e à Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA). O objetivo é demonstrar que o foco está sendo investigado e controlado, buscando o reconhecimento das medidas de regionalização sanitária para evitar restrições sobre áreas não afetadas.
O impacto comercial já começou a aparecer. Hoje, 20 de outubro, já se fala em restrições envolvendo mercados como México e China. A abrangência dessas medidas varia conforme o país, o tipo de produto e os acordos sanitários aplicáveis. Isso significa que um foco em perus pode também repercutir no comércio internacional de carne de frango.
Para a avicultura de Mato Grosso, o episódio reforça a importância de manter procedimentos de biosseguridade mesmo a centenas de quilômetros da ocorrência. Controlar a entrada de pessoas e veículos, higienizar equipamentos, monitorar o plantel e comunicar imediatamente sinais suspeitos ao serviço veterinário oficial são cuidados relevantes para a proteção sanitária e comercial da atividade.
Há, entretanto, uma distinção essencial entre o risco para as aves e a segurança alimentar da população.
O Ministério da Agricultura afirma que o consumo de produtos avícolas submetidos à inspeção sanitária oficial permanece seguro. “Eu queria destacar, porque acho que é importante a gente enfatizar, que o consumo dessa carne não traz nenhum risco às pessoas.”, pontua.
Segundo o governo, os aproximadamente 6 mil perus da granja interditada permaneceram no estabelecimento e não foram destinados à produção de carne para consumo.
A extensão efetiva das consequências sanitárias dependerá dos resultados das investigações nas 133 propriedades monitoradas. No comércio internacional, o desafio será demonstrar aos países importadores que as medidas adotadas são suficientes para manter as operações em regiões não afetadas.
Até que ponto a identificação precoce e o controle regionalizado poderão proteger os produtores brasileiros das consequências comerciais de um único foco sanitário?
Agronews é informação para quem produz
Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Editor-Chefe e Fundador24+ anos de experiência
Jornalista e fundador do Agronews, atua desde 2002 em produção audiovisual e cobertura do agronegócio brasileiro, com foco em commodities, política agrícola, pecuária e eventos do setor.