China exporta frango até 20% mais barato e ameaça mercado brasileiro
Com produção crescente e preços agressivos, indústria chinesa avança sobre compradores internacionais. Brasil mantém liderança nas exportações, mas enfrenta um novo concorrente em mercados estratégicos.
A China deixou de ser apenas uma grande compradora de carne de frango e passou a disputar clientes com os principais fornecedores mundiais, incluindo o Brasil. O avanço ocorre justamente onde os exportadores brasileiros construíram parte de sua presença internacional: mercados que compram grandes volumes e nos quais pequenas diferenças de preço podem decidir contratos.
O sinal mais evidente dessa mudança está nas negociações. Cortes chineses, como peito e quartos de coxa, estão sendo oferecidos por valores de 10% a 20% inferiores aos produtos brasileiros, conforme comparação apresentada por Ezequiel Pires, presidente da empresa internacional de comércio de carnes Branexx, em outubro de 2026.
A diferença já provocou mudanças nas compras. Desde março, a Branexx passou a adquirir carne de frango da China para atender clientes africanos interessados em alternativas mais baratas às importações brasileiras. O episódio revela uma transformação importante: a indústria chinesa começa a concorrer diretamente por compradores que antes recorriam ao Brasil.
Como a China conseguiu produzir frango mais barato?
O movimento tem origem na expansão da capacidade produtiva chinesa. Nos últimos anos, o país ampliou granjas, modernizou frigoríficos e investiu na integração entre criação, abate e processamento de alimentos.
Parte dessa expansão ocorreu com apoio governamental, dentro de políticas voltadas à segurança alimentar. O resultado foi uma estrutura capaz de produzir volumes cada vez maiores, enquanto o crescimento da demanda interna não acompanhou a oferta em todos os segmentos.
Com mais produto disponível, as empresas intensificaram a busca por compradores estrangeiros.
A indústria chinesa também avançou na padronização dos processos, na genética avícola e na fabricação de alimentos industrializados. O objetivo não se limita à comercialização de frango congelado. Produtos empanados, preparados e refeições prontas ampliam as possibilidades de acesso a mercados de maior valor agregado.
Na província de Shandong, a Wintop Food exemplifica essa transformação. A companhia processa aproximadamente 60 milhões de frangos por ano e comercializa diferentes produtos para mais de 20 países. Em 2025, as exportações responderam por metade dos lucros da empresa.
O diferencial de preço é uma de suas principais ferramentas comerciais. Mas ele não é uniforme: depende do corte, do processamento, das condições de entrega e do mercado comprador.
Brasil ainda lidera as exportações, mas a concorrência mudou
Exportações brasileiras de carne de frango in natura e processada. Variação em relação a janeiro–setembro de 2025. Fonte: ABPA, 7 de outubro de 2026.
Apesar da ofensiva chinesa, o Brasil continua apresentando crescimento nas vendas externas.
Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), os frigoríficos brasileiros exportaram 500,3 mil toneladas de carne de frango em setembro de 2026, com receita de US$ 984,2 milhões.
No acumulado dos nove primeiros meses do ano, as exportações alcançaram 4,421 milhões de toneladas, aumento de 14% em relação ao mesmo período de 2025. A receita cresceu ainda mais, chegando a US$ 8,673 bilhões.
Esses números mostram que o avanço chinês ainda não interrompeu o crescimento das exportações brasileiras. Entretanto, o aparecimento de fornecedores com preços inferiores acrescenta pressão às negociações internacionais.
O desafio é especialmente relevante em destinos onde o custo do produto tem grande peso na decisão de compra. Quando importadores passam a utilizar propostas chinesas como referência, os frigoríficos de outros países precisam defender seus preços, apresentar diferenciais ou buscar novos compradores.
A disputa, portanto, não depende apenas de quantas toneladas cada país exporta. Ela também envolve a rentabilidade obtida em cada contrato.
O avanço chinês já atinge mercados estratégicos
A concorrência ganha importância porque a China não está concentrando suas exportações em um único destino. Empresas do país avançam sobre compradores da África, do Oriente Médio, da Ásia e da Europa, oferecendo cortes congelados e produtos processados.
Na União Europeia, a participação chinesa no mercado de carne de aves processada dobrou desde 2022, chegando a 10%, conforme levantamento da consultoria Gira. No Reino Unido, a participação triplicou e ultrapassou 14%.
Essa expansão amplia a pressão sobre fornecedores tradicionais, mas também revela um obstáculo para a indústria chinesa: conquistar a confiança de compradores em relação à rastreabilidade, segurança sanitária e regularidade do fornecimento.
Para o Brasil, esses atributos representam fatores importantes de competitividade. O comércio internacional de proteína animal depende de habilitações sanitárias, certificações, controles de produção e exigências específicas de cada destino.
A diferença de preço pode abrir portas comerciais, mas não elimina essas condições.
China compra frango brasileiro e, ao mesmo tempo, concorre com o país
A transformação apresenta uma particularidade: os chineses continuam entre os principais importadores de carne de frango do Brasil.
Somente em setembro de 2026, o país asiático comprou 40,9 mil toneladas do produto brasileiro, segundo a ABPA. O volume representou forte recuperação em relação ao mesmo mês de 2025, período afetado pelas restrições comerciais relacionadas à influenza aviária.
Essa relação de compra e concorrência acontece porque o mercado de frango não é uniforme. Países apresentam preferências diferentes por cortes, produtos industrializados e padrões de processamento.
Assim, a China pode importar determinados produtos brasileiros enquanto exporta outros para terceiros mercados.
O ponto de atenção para a indústria nacional está na capacidade chinesa de ampliar sua participação em mercados historicamente atendidos pelo Brasil, especialmente nos segmentos de maior sensibilidade ao preço.
Em Mato Grosso, a transformação do comércio mundial de frango merece atenção também por seus efeitos potenciais sobre a cadeia de grãos.
Milho e farelo de soja são componentes fundamentais da alimentação de frangos de corte. Por isso, mudanças na produção avícola internacional são relevantes para quem produz, comercializa e industrializa essas matérias-primas.
Uma eventual perda de competitividade da indústria brasileira pode afetar suas perspectivas de expansão e, consequentemente, a demanda por alimentação animal. Entretanto, ainda não existem dados suficientes para atribuir alterações nos preços do milho ou da soja em Mato Grosso à concorrência chinesa no mercado de frango.
O avanço da China também representa uma oportunidade de observar como um grande comprador agrícola amplia sua própria indústria de transformação, buscando agregar valor aos produtos que comercializa internacionalmente.
Para o agronegócio brasileiro, a questão ultrapassa a competição entre frigoríficos. Ela envolve custos de produção, eficiência industrial, acesso aos mercados e a capacidade de preservar margens em um ambiente com mais fornecedores.
Enquanto isso, o Brasil permanece como líder mundial nas exportações de carne de frango. A diferença é que um de seus maiores parceiros comerciais agora também trabalha para conquistar parte dos mesmos compradores.
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Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Editor-Chefe e Fundador24+ anos de experiência
Jornalista e fundador do Agronews, atua desde 2002 em produção audiovisual e cobertura do agronegócio brasileiro, com foco em commodities, política agrícola, pecuária e eventos do setor.