Você sabia que bovinos são animais que sentem, pensam, decidem e que tem uma capacidade enorme de aprender se estivermos dispostos a ensinar? Que a medicina moderna não é capaz de compensar o resultado do mau manejo do gado? Que os animais conseguem ler a nossa expressão corporal e nos respondem de acordo com a maneira como os manejamos? Que só quando nos mantemos calmos e confiantes conseguimos construir a confiança nos animais? Que quanto mais se maneja o gado com baixo stress, mais confortáveis eles vão ficando na nossa presença e por isso compreendem melhor o que é esperado deles?

Essas são algumas das muitas questões que, se forem introduzidas em um questionário para ser aplicado aleatoriamente ao pessoal de campo responsável pela lida com a criação, as respostas serão quase sempre a mesma: não. Eduardo Borba – idealizador do Projeto Doma, especializado no manejo de animais de fazenda e parceiro da Agro-Pecuária CFM – sabe bem como é conviver com essa falta de informação.

O especialista dá algumas dicas valiosas sobre como evitar o estresse com os animais e com isso desenvolver a sensibilidade para identificar as particularidades que envolvem o comportamento animal e que podem ser a diferença entre uma relação harmoniosa entre homem e animal ou um caos total dentro da criação.

Não podemos confundir stress com pressão. O stress acontece quando os animais não conseguem responder, natural e calmamente às nossas demandas e é isso que faz com que os resultados sejam absolutamente indesejáveis. Um gado bem manejado consegue aguentar pressões incrivelmente altas e continuar calmo e respondendo às nossas demandas. No entanto, se aplicamos uma pressão de maneira tal que os animais não conseguem compreender, vamos fazer com que eles se estressem rapidamente.

O comportamento baseado no medo é o responsável pela maioria dos acidentes, tanto com pessoas como com o próprio gado. Se o que estamos procurando é controle, não existe espaço para o stress. Alias, ele é absolutamente contra producente. Quando durante o manejo o gado fica agitado, na maioria das vezes é por causa do medo que faz aflorar o Instinto de Auto Preservação.

O pânico acontece quando, por não dar a devida importância ao significado do Instinto de Auto Preservação, coloca-se uma pressão que ultrapassa os limites de segurança dos animais, resultando em acidentes graves e muitas vezes fatais. Mais uma vez, entender o significado e a importância da Preservação, permite ao homem interagir com o gado numa sintonia mais fina que resultarão no comportamento desejado. Uma das ramificações da Preservação é o Instinto de Rebanho que nos predados é muito forte, por isso, manejar um animal isolado é conduzi-lo ao stress. Quando estão em grupo, se acalmam e se deixam manejar melhor.

É absolutamente natural o gado refugar diante de movimentos. Tanto faz se são pessoas, coisas ou sons (barulho) que não sejam familiares. O gado tem uma visão panorâmica, seus olhos estão posicionados de lado e não na frente como nos predadores. Seu campo visual é extremamente largo, mas eles têm pontos cegos, bem atrás e bem na frente deles. Precisam abaixar a cabeça quase no chão para determinar a profundidade de uma sombra ou uma possa d´água. Precisam virar quando são surpreendidos no ponto cego. Existe ainda uma forte sensibilidade aos contrastes, tanto os muito escuros, como os muito claros O uso de tom de voz macio e suave também ajuda quando queremos uma convivência “pacífica”. Gritos e tons de voz altos perturbam o comportamento deles.

É preciso muito cuidado quando vamos nos aproximar de animais agitados, com medo ou em situação de pressão excessiva, principalmente de machos inteiros, que mostram um senso de dominação e agressividade elevado, pode levar a ocorrência de acidentes. Situação semelhante ocorre com fêmeas que costumam proteger seus bezerros de forma agressiva.