Experiência no Pampa Gaúcho mostra como integrar produção de grãos e apicultura; em Mato Grosso, o potencial depende do manejo das lavouras, da saúde das colônias e da coordenação entre produtores.
Antes da colheita dos grãos, as flores da soja oferecem outro recurso: néctar para as abelhas. No Pampa Gaúcho, essa conexão sustentou a produção de aproximadamente 36 toneladas de mel por 23 apicultores na safra 2025/26. O resultado, divulgado pela BASF essa semana, representa crescimento de 44% em relação à temporada anterior.
A experiência integra o Projeto Coexistência entre Agricultura e Apicultura, que aproxima sojicultores e produtores de mel. Durante a floração, as lavouras funcionam como fonte complementar de alimento para as colmeias. A continuidade está prevista para a safra 2026/27.
“Esse projeto mostra que produtividade agrícola e conservação ambiental podem caminhar juntas. Quando agricultores e apicultores trabalham de forma integrada, com boas práticas e diálogo permanente, todos ganham e a experiência da safra 2025/26 só reforça isso. O plantio das mudas representa a continuidade desse compromisso e transforma os resultados gerados pela cadeia em benefícios ao meio ambiente“, avalia Maurício do Carmo Fernandes, gerente de Stewardship e Sustentabilidade da BASF Soluções para Agricultura Brasil.
Em Mato Grosso, a extensa área dedicada à soja oferece uma base para investigar essa integração. O aproveitamento, porém, depende de organizar apiários, conhecer as floradas e compatibilizar as operações agrícolas com a atividade das abelhas. A dimensão da sojicultura estadual, documentada pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), torna essa possibilidade relevante para produtores e assistência técnica.
A flor alimenta as abelhas, e a visita pode beneficiar a soja
A expressão “mel de soja” se refere ao aproveitamento do néctar das flores da cultura. Na base da flor existe um nectário, estrutura que produz a substância açucarada procurada pelos insetos. O livro Soja e Abelhas, da Embrapa, descreve muito bem esse mecanismo e explica que a soja realiza autopolinização, mas também pode se beneficiar da visita de abelhas.
A relação aparece na cartilha Boas Práticas para Integração entre Apicultura e Sojicultura, publicada pelo Senar em 2025. O documento reúne orientações sobre proteção dos polinizadores, tecnologia de aplicação, manejo das colmeias e comunicação entre produtores.
Essa publicação apresenta resultados de pesquisas da Embrapa com incrementos de produtividade da soja de até 13%, chegando a 18% em alguns anos. São resultados associados às condições estudadas e à presença de uma população adequada de abelhas, sem constituir uma expectativa automática para qualquer propriedade.
Para os apicultores, o interesse está na oferta de alimento durante a floração. A cartilha registra relatos de colheitas nesse período superiores à média anual brasileira por colmeia mencionada na publicação. Também observa que a soja não é considerada uma planta melífera clássica, embora seja visitada pelas abelhas, especialmente para coleta de néctar.
O benefício exige que os demais componentes do sistema funcionem. Solo, controle de pragas e condução da cultura continuam determinantes; a polinização suplementar se integra a esse conjunto.
O cuidado começa antes de ligar o pulverizador
Uma abelha pode entrar em contato com um pesticida sem ser atingida diretamente pela pulverização. Resíduos em superfícies vegetais, néctar, pólen e fontes de água também são vias de exposição descritas pela cartilha.
O material distingue três formas de absorção: oral, respiratória e dérmica. A ingestão de alimento contaminado pode afetar as abelhas que buscam recursos no campo e outros indivíduos da colônia. O contato com produtos ou superfícies tratadas permite a absorção pelo corpo; a via respiratória depende, entre outros fatores, da capacidade de volatilização do pesticida.
Por isso, a publicação coloca o Manejo Integrado de Pragas no centro da convivência entre soja e apicultura. A decisão de controlar uma praga deve considerar o monitoramento da população e dos danos, com técnicas como o pano de batida, além do reconhecimento de predadores e outros inimigos naturais.
Há um detalhe que amplia o cuidado: mesmo quando a soja não está florescendo, plantas nas bordas ou no interior da lavoura podem estar atraindo abelhas. A avaliação antes de uma aplicação precisa considerar essas floradas.
O horário também importa. A visitação às flores da soja é mais intensa entre 8h e 14h, com pico entre 10h e 12h. O documento aponta o final da tarde ou a noite como alternativas para reduzir a exposição direta quando uma aplicação é necessária. A escolha exige observar a atividade das abelhas no local, as condições atmosféricas e as restrições da bula.
Uma gota pequena pode alcançar outra área
A deriva ocorre quando parte da pulverização se desloca para fora do alvo. Na integração com a apicultura, esse movimento pode levar produtos até colmeias, vegetação visitada por abelhas ou fontes de água.
Quanto menor a gota, mais tempo ela tende a permanecer em suspensão. Estudos que apontam deriva muito baixa para diâmetros superiores a 200 micrômetros e risco mais elevado para gotas inferiores a 150 micrômetros sob determinadas condições de vento. Um micrômetro equivale a um milésimo de milímetro.
A escolha envolve uma relação entre cobertura do alvo e controle da deriva. Gotas mais finas favorecem cobertura e penetração, mas ficam mais sujeitas à evaporação e ao transporte pelo ar. Gotas maiores ajudam a conter esse deslocamento, embora possam reduzir cobertura e penetração.
Ponta de pulverização, pressão, altura da barra, velocidade da máquina, temperatura, umidade e vento precisam ser considerados juntos. O tamanho da gota, isoladamente, não assegura uma operação adequada.
A colônia precisa chegar forte à florada
A oferta de néctar encontra limites dentro da própria colmeia. É considerada forte uma colônia com população superior a 50 mil indivíduos e destaca a importância de manter crias e abelhas adultas saudáveis.
O apicultor precisa acompanhar alimentação, condição dos favos, presença de pragas e desempenho da rainha. Para apiários instalados na borda de lavouras, o documento recomenda visitas semanais, sempre que possível.
Algumas curiosidades ajudam a entender esse trabalho.
Os favos de cria escurecem com o uso, e suas células podem ficar menores. Segundo a publicação, abelhas desenvolvidas nessas células emergem com menor tamanho. A substituição de favos também contribui para reduzir o acúmulo de compostos e microrganismos na cera.
Outro recurso é o “pão de abelha”: pólen armazenado nos favos e combinado com mel ou secreções glandulares, formando um alimento importante para a colônia.
Até a entrada da colmeia, chamada alvado, exige atenção à paisagem. A orientação apresentada pelo Senar é posicioná-la para reduzir a incidência de correntes de vento, em vez de adotar obrigatoriamente a direção leste.
Mato Grosso tem potencial, mas a parceria ultrapassa a propriedade
Para desenvolver a integração em Mato Grosso, o planejamento precisa alcançar as áreas vizinhas. Como vimos, abelhas em busca de alimento podem percorrer entre 2,5 e 3 quilômetros a partir da colmeia e recomenda incluir no sistema de comunicação os produtores situados em um raio de 3 quilômetros do apiário.
Esse raio orienta o diálogo entre produtores. As faixas de segurança para pulverização dependem das condições da operação e das recomendações específicas dos produtos.
Recomenda-se avisar os apicultores com pelo menos 48 horas de antecedência sobre aplicações de pesticidas próximas aos apiários. Mapear as colmeias e compartilhar informações sobre plantio, início da floração e manejo permite antecipar decisões.
O potencial mato-grossense envolve, portanto, a combinação entre lavouras, estrutura apícola e disponibilidade de alimento ao longo do ano. Um calendário floral permite identificar quando diferentes plantas oferecem recursos e em quais períodos pode haver escassez.
A vegetação próxima às áreas produtivas participa desse planejamento. Árvores, arbustos e outras plantas que florescem em épocas diferentes ajudam a sustentar as abelhas além da florada da soja. No projeto gaúcho, essa preocupação levou ao plantio de cerca de 5 mil mudas nativas em São Gabriel, em agosto, com o objetivo de ampliar a oferta de recursos florais durante a entressafra.
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Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Editor-Chefe e Fundador24+ anos de experiência
Jornalista e fundador do Agronews, atua desde 2002 em produção audiovisual e cobertura do agronegócio brasileiro, com foco em commodities, política agrícola, pecuária e eventos do setor.