Atualizando...

Seguro rural frágil amplia risco para produtores em meio à dívida recorde no campo

Seguro rural frágil amplia risco para produtores em meio à dívida recorde no campo

O Brasil chega ao Plano Safra 2026/27 como potência agrícola, mas com proteção estreita contra perdas climáticas. O contraste já pesa no bolso do produtor.

A discussão reúne três frentes que se encontram porteira adentro. Queda na área segurada, dívida elevada e cobrança por um modelo mais previsível para o crédito rural.

Dados do Sistema de Informações do Seguro Rural (SISSER/MAPA) indicam cerca de 2,16 milhões de hectares amparados em 2025.

É o menor patamar em pelo menos dez anos e um sinal incômodo para um país que planta em escala continental.

Produtor observa lavoura sob risco climático em área agrícola
Baixa cobertura do seguro rural amplia exposição de lavouras a seca, excesso de chuva e quebras de produtividade.

Brasil produz muito, mas protege pouco

A avaliação apresentada pela CNA é dura. A entidade afirma que o seguro rural brasileiro está entre os mais frágeis no grupo das grandes potências agrícolas, especialmente na relação entre área protegida, regularidade orçamentária e participação pública no prêmio pago pelo produtor.

Nos Estados Unidos, a Risk Management Agency do USDA administra um sistema de larga escala, com forte subsídio federal e produtos por cultura, região e receita.

Na União Europeia, a Comissão Europeia apoia instrumentos de gestão de risco dentro da política agrícola comum. China e Índia também ampliaram programas públicos nos últimos anos, ainda que com diferenças relevantes de desenho, fiscalização e execução.

Região ou paísReferência institucionalCaracterística do modelo
BrasilMAPA e CNASubvenção federal relevante, porém instável e com baixa área protegida
Estados UnidosUSDA Risk Management AgencyPrograma amplo, orçamento robusto e cobertura associada a produtividade e receita
União EuropeiaComissão EuropeiaGestão de risco vinculada à política agrícola comum e a programas nacionais
ChinaOCDE e FAOExpansão de seguros agrícolas com participação estatal crescente
ÍndiaOCDE e FAOPrograma de grande escala, voltado a pequenos produtores e risco climático
Argentina e AustráliaOCDE e FAOMercados com instrumentos privados e públicos, variando por cultura e região

A comparação não entrega uma fórmula pronta para importar. O ponto central é que concorrentes tratam a gestão de risco como peça estrutural da política agrícola, enquanto o Brasil ainda convive com orçamento anual incerto, liberações concentradas e disputa recorrente por recursos de subvenção.

Área segurada recua enquanto a dívida rural passa de R$ 800 bilhões

O recuo da cobertura ocorre em um momento de aperto financeiro. Estatísticas do Banco Central sobre crédito rural mostram estoque de obrigações no campo acima de R$ 800 bilhões.

Na ponta do lápis, isso aumenta o risco de uma quebra climática virar problema de caixa, renegociação bancária e perda de capacidade de investimento. O seguro não elimina prejuízo, mas pode impedir que um evento climático comprometa várias safras seguintes.

A Conab projeta uma agricultura brasileira com área plantada extensa e produção elevada, sustentada por tecnologia, manejo e avanço logístico. Esse ganho, porém, não elimina a exposição a veranicos, excesso de chuva, granizo, geada e doenças associadas ao clima.

Quando a terra deu resposta em safras boas, parte do produtor conseguiu rolar compromissos. Em anos ruins, a ausência de cobertura transforma instabilidade produtiva em pressão patrimonial.

O efeito é mais sensível em culturas de alto desembolso, como soja, milho, algodão e café. Sementes, fertilizantes, defensivos, máquinas e arrendamento entram antes da colheita. Se a apólice não cobre parcela relevante da lavoura, o produtor fica dependente da própria reserva, de alongamento de dívida ou de novo crédito.

Em Mato Grosso, maior produtor de grãos do país, o problema ganha dimensão adicional.

Levantamentos do IMEA acompanham custos elevados, forte dependência de financiamento e margens pressionadas em determinadas regiões. Mesmo sem transformar o seguro rural em solução única, a baixa contratação reduz a proteção onde o volume financeiro por hectare é alto e o calendário operacional não permite improviso.

Há também um efeito sistêmico. Bancos, cooperativas, revendas e tradings observam o risco climático como parte da avaliação de crédito.

Novo modelo entra na pauta do Plano Safra 2026/27

O governo federal passou a discutir um redesenho do seguro rural com possibilidade de orçamento de até R$ 5 bilhões por ano, em tentativa de dar escala ao programa. A proposta dialoga com a demanda por juros menores no custeio agrícola, inclusive com defesa de taxas de um dígito para parte das operações.

A CNA cobra um Plano Safra 2026/27 de R$ 623 bilhões, com reforço em crédito, subvenção e instrumentos de mitigação de risco.

Para a entidade, não basta ampliar o volume nominal de financiamento se a lavoura continuar exposta a eventos climáticos sem proteção suficiente. O argumento é que seguro, crédito e renda precisam caminhar juntos, com regras conhecidas antes da contratação.

No Congresso, o PL 2951/24, que aperfeiçoa os marcos legais do seguro rural, foi aprovado na Câmara dos Deputados em maio e aguarda retorno ao Senado Federal.

A proposta busca ampliar previsibilidade, atrair mais seguradoras e estabelecer regras permanentes. O desafio será construir um arranjo que não dependa apenas de suplementações emergenciais e mantenha custo aceitável ao produtor.

Os dados do SISSER mostram por que a pauta ganhou urgência. A subvenção federal ao prêmio do seguro rural caiu de R$ 1,04 bilhão em 2024 para R$ 476,7 milhões em 2025, uma redução de cerca de 54%. Na ponta do lápis, isso reduziu a oferta de apólices e deixou produtores fora da janela ideal de contratação.

Seguro rural não funciona bem quando chega tarde.

Para o produtor, a pergunta prática é simples. Quem paga a conta quando a safra falha e a dívida permanece? Sem resposta estável, o país segue produzindo muito, mas carregando uma vulnerabilidade que aparece justamente nos anos em que a renda rural mais precisa de proteção.

Agronews é informação para quem produz

Foto de Vicente Delgado

Sobre o autor

Vicente Delgado

DRT 2364/MT

Jornalista e fundador do Agronews, referência em informações sobre o agronegócio brasileiro. Com mais de 15 anos de experiência no setor, acompanha de perto as principais commodities, políticas agrícolas e tendências do mercado rural.

Ver página do autor
crédito agrícola programa de seguro rural seguro

Compartilhe esta notícia: