Gustavo Rezende Siqueira é formado em zootecnia pela Universidade Federal de Lavras, possui mestrado e doutorado pela UNESP, campus de Jaboticabal e há 12 anos é pesquisador Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), com ênfase em produção animal
Scot Consultoria: O que você delimita como os primeiros passos para definir uma estratégia de suplementação adequada durante o período das secas?
Gustavo Rezende: Seja nas secas ou nas águas, o produtor precisa ter uma meta definida. A base da suplementação é o sal mineral, o ganho adicional nas secas é melhor do que o ganho adicional nas águas, porque o produtor tem um espaço maior para trabalhar. Como há mais espaço, há também a disponibilidade de expandir a suplementação para mais categorias.
Ela pode ser feita em vacas, objetivando a mantença ou o ganho de peso para melhorar o escore corporal e possibilitar um melhor resultado de prenhez, ou também podemos suplementar essa fêmea para fazer o que chamamos de “programação fetal”, com o objetivo de produzir bezerros de maior qualidade. Isso fica mais importante ainda para vacas que estão no terço médio da gestação durante o período da seca, no qual o desafio é maior.
Podemos traçar estratégias semelhantes para animais de recria ou animais de terminação. Mas em qualquer uma dessas estratégias é primordial que o pecuarista tenha pasto na seca.
Normalmente, podemos considerar suplementações altas na recria em torno de 1,0 kg/dia por animal, no entanto essa quantidade representa de 10,0 a 15,0% da exigência de consumo de matéria seca desse animal, então às vezes o produtor oferece 300 gramas de suplementação esperando que o animal tenha um excelente desempenho, mas quando olhamos para o pasto, ele está muito aquém do desejado.
Suplementos de baixo consumo são excelentes ferramentas, desde que o produtor tenha pasto. Mas isso não quer dizer que o produtor que não tem pasto não deve suplementar, ele tem que entender que se ele for suplementar sem pasto o ganho de peso vai ser muito baixo. Nas secas a suplementação não é opcional, é obrigatória. Agora é necessário avaliar qual suplemento e qual manejo é adequado para sua situação.
Para traçar a estratégia de suplementação o primeiro ponto necessário é ter pasto com quantidade de matéria seca adequada, o segundo ponto é ter cocho e o terceiro é ter mão de obra qualificada para fornecer o suplemento para o gado. Essas são as questões que habilitam o produtor a suplementar, e depois ele avalia qual a viabilidade em cada uma das categorias dos animais.
Scot Consultoria: Você acredita que a suplementação no Brasil é uma tecnologia ainda pouco usada?
Gustavo Rezende: Eu considero que, pensando em animais de recria e terminação, é crescente o uso de suplemento durante o período de seca, mas ainda é menos do que deveria ser.
Durante a recria há uma ótima resposta do animal frente à suplementação, mas acredito que os pecuaristas têm “negligenciado” essa categoria, por estarem ainda longe da fase final de terminação.
Para recria, animais em crescimento, que na próxima fase estarão à pasto na seca, temos recomendado o uso de um grama por quilo de peso vivo de suplemento proteinado, sendo assim um consumo de 200 a 300 gramas por cabeça por dia. Esse é um manejo mais generalizado, é obvio que podemos fazer mais ou menos para casos mais específicos, se a demanda de ganho for maior é possível entrar com mais suplemento, se a demanda for menor, com menos, nunca esquecendo que o pasto é a base da alimentação desse animal.
A terminação é onde o produtor mais usa o suplemento, mas existem muitos erros principalmente para terminação a pasto. O produtor tem que perceber que uma estratégia para terminar bovinos nas águas é muito diferente da estratégia para terminar nas secas. A qualidade do pasto está diferente então o tipo do suplemento e o manejo também devem ser alterados.
Vários produtores e técnicos comentem erros básicos querendo o mesmo ganho durante as secas e as águas usando o mesmo tipo de estratégia. Isso não vai acontecer, principalmente quando estamos falando de suplementações com 1,0% do peso vivo ou menos.
Nas secas temos duas situações: se o produtor quer abater o seu animal nesse período ele tem que entender que o pasto apresenta uma série de limitações nutricionais, que o ganho de peso advindo somente do pasto será muito baixo ou até mesmo nulo, por isso, se o objetivo for abater o animal nessa época é necessário fornecer um incremento alto de nutrientes a ponto de ele ganhar peso e ter rendimento e acabamento de carcaça adequados. Ou seja, para terminar animais na seca é necessário o uso de altas doses de suplementos, cinco, seis ou até oito quilos de suplemento por dia por cabeça.
Fornecer de um a três quilos por cabeça por dia, durante a seca, com o objetivo de terminação, é insuficiente, o desembolso é muito alto e a resposta é péssima. Economicamente essa estratégia é muito ruim.
Na seca ou você faz a suplementação com proteinado e sal ureado para o animal ficar em mantença ou você entra com uma suplementação pesada para terminar ele. Não existe “meio do caminho”. E a maior parte das pessoas fica no meio do caminho, apuram um péssimo resultado econômico e creditam isso à suplementação.
Fazendo uma analogia… Antigamente o confinador fornecia quatro quilos de ração e volumoso a vontade. Um pecuarista escolheu produzir silagem de milho para ser o volumoso já outro pecuarista fornecia bagaço de cana à vontade. Nutricionalmente esse último volumoso tem muito menos qualidade nutricional que a silagem de milho, então os resultados de desempenho serão piores, mesmo todos usando a mesma quantidade de ração. Ou seja, usando quatro quilos de ração nas águas o resultado será ótimo porque o pasto está bom, agora se o pasto for ruim usar os mesmos quatro quilos não é suficiente. A suplementação é necessária, mas deve ser bem feita e considerar a dieta do animal a pasto.
Scot Consultoria: Gustavo, tanto o subconsumo quanto o superconsumo é prejudicial, mas algum é pior que o outro?
Gustavo Rezende: Ambos causam prejuízo para o produtor.
No subconsumo o animal não come aquilo que precisa então o resultado será aquém do esperado, é prejuízo, o produtor está desembolsando e não terá o resultado planejado. O problema não é só o dinheiro que o produtor gasta, mas também o dinheiro que ele deixa de ganhar.
Já o superconsumo pode levar ao desempenho desejado ou até mesmo maior, mas o produtor desembolsa muito mais do que deveria. A resposta do ganho de peso não será na mesma proporção do excesso de consumo.
