Chegamos à sexta-feira com o mercado internacional processando uma verdadeira quebra de braço entre as planilhas do governo americano e a realidade constatada no campo. Após uma semana de forte rali altista, as telas agrícolas da Bolsa de Chicago (CBOT) passam por uma natural realização de lucros nesta manhã. Enquanto isso, o cenário geopolítico continua sem dar trégua, empurrando o petróleo para a perigosa faixa dos US$ 93,00 e adicionando um peso extra na conta dos fretes e insumos para a próxima safra.
Abaixo, trago o detalhamento dos fundamentos que comandam a abertura dos negócios nesta sexta-feira, direto da nossa redação em Cuiabá.
O front macro: Brent dispara e consolida patamar acima de US$ 93,00
O cenário de energia encerra a semana acendendo alertas vermelhos para a inflação global. O barril de petróleo tipo Brent, que já havia disparado e fechado a sessão de ontem acima dos US$ 93,00, amanheceu operando em campo levemente positivo, trabalhando a US$ 93,97.
A principal força motriz por trás dessa escalada continua sendo o conflito entre Estados Unidos e Irã. Sem uma resolução diplomática à vista, o mercado segue precificando o risco latente de um estrangulamento no Oriente Médio, encarecendo a logística marítima e pressionando a tabela de fertilizantes e combustíveis.
Complexo Soja: Realização de lucros, mas patamar de US$ 12,50 vira o novo piso
Na Bolsa de Chicago (CBOT), a sexta-feira começou em campo negativo para a oleaginosa. Trata-se de um movimento clássico e saudável de realização de lucros após a forte arrancada dos últimos dias.
Apesar do recuo, o mercado já estabeleceu um novo e mais alto degrau de preços. O contrato da Soja Março/27 (safra sul-americana), que chegou a bater a marca de 1260 cents/bushel, mantém-se firme acima dos 1250 cents no pregão noturno.
Esse novo patamar é sustentado diretamente pelas descobertas da expedição Pro Farmer Crop Tour. A avaliação in loco dos técnicos está contestando abertamente as projeções otimistas feitas anteriormente pelo USDA. A real qualidade das lavouras é inferior ao esperado, e os resultados diários da expedição tornaram-se o principal balizador dos traders. Para completar a sustentação técnica, a demanda segue ativa: o USDA reportou ontem mais uma nova venda de 150 mil toneladas de soja americana (com destino não revelado, mas amplamente lido pelo mercado como compras chinesas).
Milho: Illinois frustra expectativas e confirma quebra
O milho segue a mesma toada da soja e baliza seus preços pela realidade da Crop Tour, que vem reportando um potencial produtivo significativamente menor que o do ano passado.
O caso de Illinois (um dos principais corações do Corn Belt) é o retrato dessa quebra: a expedição encontrou uma expectativa de produção de apenas 184,19 bushels por acre. Esse número é um balde de água fria quando comparado aos excelentes 199,57 bushels por acre observados no tour de 2025 e fica bem distante da média dos últimos três anos (199,15 bushels/acre). Essa quebra física garante o suporte dos preços futuros.
Mercado Financeiro: Dólar cai forte a R$ 5,16 sob alerta do Bank of America
No front cambial, a moeda americana passa por forte solavanco. Após uma recuperação no mercado de ontem (fechando a R$ 5,193), o dólar iniciou a sexta-feira caindo forte, com baixa de 0,5%, trabalhando na casa de R$ 5,16.
O recuo é reflexo de tensões nas mesas financeiras globais. Estrategistas do Bank of America emitiram um alerta afirmando que é esperada uma nova rodada de intervenção política para limitar os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de longo prazo. Embora acreditem no sucesso da medida, os analistas alertam que, caso a estratégia falhe, as consequências serão graves: pode haver um desencadeamento de forte queda estrutural do dólar, com o mercado virando agressivamente para posições vendidas.
Para o produtor brasileiro, esse escorregão cambial no fechamento da semana reduz a competitividade e esfria o apetite por novas fixações no balcão de curto prazo.
O que levar no radar hoje: Para organizar suas estratégias de fechamento de semana:
Pausa Técnica: CBOT amanhece em campo negativo com realização de lucros após a disparada semanal.
Novo Degrau na Soja: Contrato Março/27 consolida o piso acima de 1250 cents/bushel, amparado pela quebra americana.
A Realidade do Campo:Crop Tour contesta os números do USDA; milho em Illinois aponta forte queda de produtividade frente a 2025.
Demanda Oculta: Nova venda de 150 mil toneladas de soja nos EUA confirmada pelo USDA.
Energia no Topo: Brent estabilizado em perigosos US$ 93,97, pressionando a inflação e a logística global de insumos.
Câmbio Escorregando: Dólar cede a R$ 5,16 com o mercado financeiro em alerta sobre os títulos do Tesouro dos EUA.
O momento pede cautela redobrada nas relações de troca. Com o Brent flertando com US$ 94 e o dólar em ritmo de queda, o poder de compra da saca frente aos insumos fica estrangulado. Um excelente final de semana a todos e ótimos negócios!
Por Luiz Cunha – Consultor de mercado físico de grãos e fertilizantes
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Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Editor-Chefe e Fundador24+ anos de experiência
Jornalista e fundador do Agronews, atua desde 2002 em produção audiovisual e cobertura do agronegócio brasileiro, com foco em commodities, política agrícola, pecuária e eventos do setor.