Por trás de cada fruto bem formado tem um trabalho invisível que quase nunca entra na conta do produtor.
Deixa eu te perguntar uma coisa, assim, olhando no olho mesmo. Quando você vê uma abelha pousando na flor da lavoura, você pensa nela como praga, visita ou funcionária da fazenda? Pois é… a maioria passa batido. Só que, lá na roça, o que parece pequeno costuma carregar o mundo nas costas.
As abelhas tão aí desde antes da porteira existir, trabalhando de sol a sol, sem pedir aumento, sem sindicato e sem holofote. E não é conversa bonita não, é coisa séria de lavoura. Segundo levantamentos usados pela FAO e por instituições brasileiras, abelhas participam da polinização de cerca de 70 a 73% das culturas agrícolas do mundo. Já pensou nisso direito? Sem esse zumbido todo, a feira da cidade ficava magra, o prato perdia cor e o produtor sentia no bolso.
O trabalho invisível que sustenta a colheita
No Brasil a coisa fica ainda mais interessante. Uma revisão científica que analisou 249 estudos mostrou que, das 250 espécies de animais polinizadores ligados a 75 culturas agrícolas, 87% são abelhas. É domínio total. Não é força bruta, é constância. Enquanto a gente discute clima, mercado e custo, elas seguem firmes, indo de flor em flor, ajeitando o que o vento sozinho não dá conta.
Produtor de maçã, café, morango, tomate, pimentão… quem convive com área bem polinizada percebe no olho. Fruto mais cheio, semente bem formada, padrão melhor. E a pergunta que fica é simples e meio provocativa: quem você acha que manda mais na lavoura, o trator novo ou esse exército miúdo que ninguém contabiliza?
As nativas que a cidade quase não conhece
Muita gente acha que abelha é tudo igual, mas isso é conversa de quem nunca prestou atenção no campo. Aqui no Brasil tem as sem ferrão, como Melipona e Trigona, que são coisa fina da natureza. No Cerrado, por exemplo, elas chegam a polinizar até 80% das plantas. Oitenta. E sem ferroar, sem confusão.
Tem produtor que cria essas abelhas em caixas simples, ali perto do pomar de graviola ou de outras frutas. Não é moda, é adaptação. Elas conhecem a planta nativa como ninguém. Agora me diz, se a natureza já entregou a ferramenta pronta, por que a gente insiste em ignorar?
A famosa africanizada e sua fama injusta
Claro que não dá pra falar de abelha no agro sem lembrar da Apis mellifera africanizada. Ela poliniza 28 culturas agrícolas no Brasil, do Norte ao Sul, inclusive em áreas degradadas. É versátil, aguenta o tranco e trabalha até onde outras não chegam.
Em lavoura de algodão, soja e até em culturas que o pessoal jura que são só “de vento”, como a mamona, ela aparece de forma incidental e melhora o resultado final. Semente mais rica, óleo melhor. E aí vem a ironia, né. Tem gente que morre de medo da abelha, mas não vive sem o resultado do trabalho dela.
A irapuá e as áreas esquecidas
Agora, se tem uma que é raiz mesmo, é a Trigona spinipes, a famosa irapuá. Ela atua em 10 culturas diferentes e dá conta do recado até em regiões pobres de biodiversidade. Onde o solo já cansou e outras espécies somem, ela fica.




