Na lida do campo brasileiro, o cavalo nunca foi só montaria. É traço cultural, ferramenta de trabalho e negócio de peso.
O Brasil tem hoje quase 6 milhões de equinos espalhados pelo país. Mais de 200 mil criadores registrados, um rebanho que ganha qualidade genética a cada ano e uma cadeia produtiva que movimenta algo entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões por ano. A equideocultura emprega mais gente que a indústria automobilística, e boa parte dessa força está no campo.
Não se trata apenas de tradição. Dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) mostram que o agronegócio do cavalo responde por cerca de 3% do PIB da agropecuária nacional. A atividade gera emprego direto para tratadores, ferreiros, veterinários e técnicos de genética.
Pois é. O dado impressiona.
Equideocultura brasileira emprega milhares de trabalhadores no campo
Quarto de Milha, Mangalarga e Crioulo as raças que puxam o mercado
Números que impressionam.
O 5º JBJ Ranch e Família Quartista Weekend, em Nazário (GO), movimentou R$ 257 milhões em negócios em 2026. Bateu o próprio recorde. O Brasil é o segundo maior criador de Quarto de Milha do mundo, atrás só dos EUA. Uma raça que se adaptou tão bem ao clima brasileiro que virou febre entre criadores.
O Mangalarga Marchador, raça genuinamente brasileira, segue outro caminho de crescimento. A Exposição Nacional da raça reuniu mais de 1,6 mil cavalos em Belo Horizonte em maio. A cadeia produtiva ligada ao Mangalarga movimenta cerca de R$ 9 bilhões por ano, puxada por criadores do Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste.
Já o Cavalo Crioulo, concentrado no Sul, mantém espaço como símbolo da cultura gaúcha. Atrai compradores de países vizinhos como Uruguai e Argentina.
A profissionalização avança. Em abril, o Rio Grande do Sul ganhou um novo laboratório de reprodução equina, projetado para levar inseminação artificial e transferência de embriões a criadores do Brasil inteiro.
Quando um cavalo vale R$ 88 milhões a nova fronteira dos negócios
O cavalo Inferno 66 virou manchete. Metade do animal foi arrematada por um valor que impressionou até pecuaristas experientes.
Genética de ponta, linhagem campeã e mercado aquecido. O cavalo de alta performance é visto como investimento com retorno na reprodução e na competição. Alguns animais valem mais que fazendas inteiras.
O empresário Fabrício Batista representa bem essa nova fase. Seu trabalho de melhoramento genético posicionou animais brasileiros no radar de compradores internacionais. Algo impensável há vinte anos.
Na ponta do lápis, a conta é clara. Um potro com linhagem certificada sai por R$ 200 mil. Um adulto preparado para provas ultrapassa R$ 1 milhão. Os custos de manutenção são altos e incluem alimentação, veterinário e treinamento. Mas a margem para quem acerta na compra é igualmente robusta.
Os desafios da lida equina entre tradição e profissionalização
A equideocultura enfrenta gargalos. A informalidade ainda é grande. Muitos criadores pequenos não têm acesso a registro genealógico ou canais de venda estruturados. Falta assistência no interior, e o custo de manter um animal de qualidade afasta quem poderia entrar.
A CNA criou a Comissão Nacional de Equideocultura para organizar o setor. Em junho de 2026, criadores de todo o Brasil se reuniram em Feira de Santana (BA) para discutir os rumos da atividade. Sinal de que a categoria começa a se articular como segmento econômico.
O potencial está aí. Com quase 6 milhões de animais, o Brasil tem o segundo maior rebanho equino do mundo. Se conseguir organizar a cadeia, reduzir a informalidade e levar genética aos pequenos, o mercado pode mais que dobrar na próxima década. O cavalo brasileiro já não é só parceiro de lida. É ativo econômico que pede reconhecimento.
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Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Jornalista e fundador do Agronews, referência em informações sobre o agronegócio brasileiro. Com mais de 15 anos de experiência no setor, acompanha de perto as principais commodities, políticas agrícolas e tendências do mercado rural.