O avanço do anidro e o consumo de gasolina mexem com o mercado e trazem liquidez para as usinas no início do ano
Quem vive o dia a dia do canavial sabe que o final de ano e o comecinho de janeiro costumam ditar o ritmo do que vamos enfrentar na entressafra. Diferente de outros anos, onde o silêncio imperava nas mesas de negociação durante as festas, o encerramento de 2025 e a entrada de 2026 mostraram um cenário de correria e pátios movimentados nas usinas do Centro-Sul. O produtor que olha para a porteira e vê o fluxo de caminhões não nega: a liquidez apareceu quando muita gente ainda estava brindando. Clique aqui e acompanhe o agro.
O que se viu nas últimas semanas foi um movimento robusto, puxado principalmente por São Paulo. Não estamos falando apenas de conversas de balcão, mas de números que mostram uma necessidade real de reposição de estoques pelas distribuidoras. O volume de negócios envolvendo o etanol anidro, aquele que vai misturado na gasolina, praticamente triplicou. Isso não acontece por acaso e tem um reflexo direto na formação do preço que o produtor recebe lá na ponta, via Consecana, ou na valorização do ativo da usina.
A força do anidro e a carona na gasolina C
Para entender por que o anidro deu esse salto, a gente precisa olhar para o asfalto. Com as viagens de final de ano e as férias escolares, o consumo de gasolina C na ponta varejista disparou. Como a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina é uma regra de mercado, cada litro de combustível fóssil vendido exige sua parte de biocombustível. As distribuidoras, que operavam com estoques ajustados, precisaram correr para as usinas paulistas para garantir o suprimento.
Segundo dados apurados pelo Cepea, essa movimentação fez com que o Indicador CEPEA/ESALQ do etanol anidro fechasse em R$ 3,3688 por litro entre o final de dezembro e o início de janeiro. É uma alta de 0,59% que, embora pareça tímida para quem olha de longe, ganha um peso enorme quando somada ao volume transacionado. O mercado está comprador, e quando o comprador tem pressa, o preço ganha sustentação.
Essa firmeza nos preços do anidro já dura duas semanas seguidas, mas o que chama a atenção é a consistência. Não é um soluço de mercado, é um reflexo de uma demanda real que encontra uma oferta controlada neste período de entressafra. Pro produtor de cana, isso é sinal de que a remuneração da matéria-prima tende a se manter em patamares saudáveis, equilibrando as contas do ciclo que se fecha.
O fôlego do hidratado e as doze semanas de alta
Se o anidro é o puxador da fila por conta da mistura na gasolina, o hidratado não ficou para trás e mostrou que tem luz própria. Nas usinas paulistas, as vendas desse combustível cresceram 43% no comparativo semanal. O motorista sentiu o peso no bolso, mas continuou optando pelo biocombustível em muitas regiões onde a paridade ainda favorece o renovável.
O dado mais impressionante aqui é a resiliência: o hidratado já acumula doze semanas seguidas de alta no estado de São Paulo. Fechou cotado a R$ 2,9561 por litro, um avanço de 0,9%. Manter uma trajetória ascendente por três meses não é para qualquer commodity, ainda mais em um mercado tão volátil quanto o de combustíveis. Isso mostra que, apesar de estarmos em um período onde teoricamente o consumo poderia oscilar, a base de consumo de hidratado está consolidada.
Isso traz uma segurança estratégica para quem está no campo. Quando o hidratado sobe de forma escalonada, ele cria um piso de preço que evita quedas bruscas no valor da cana-de-açúcar. O manejo dos estoques de passagem pelas usinas tem sido cirúrgico, evitando que o mercado fique saturado e garantindo que cada litro negociado saia com uma margem que remunere o custo de produção, que não anda baixo.




