Oferta maior de cana pressiona o biocombustível no mercado interno, mas contratos de açúcar avançam com atenção ao clima
O começo da safra 2026/27 de cana no Centro-Sul trouxe dois sinais para usinas, distribuidoras e tradings. O etanol hidratado perdeu força no mercado interno com a entrada mais firme de matéria-prima, enquanto o açúcar buscou recuperação nas bolsas externas, apoiado pela atenção ao clima e ao fluxo global de oferta.
A virada operacional aparece nos canaviais de São Paulo, Goiás, Minas Gerais e Paraná. Com mais unidades em moagem, o caixa das usinas passa a depender da velocidade das vendas e da escolha entre fabricar açúcar ou direcionar caldo para etanol. Essa decisão ganhou peso porque o consumidor brasileiro segue atento ao diferencial entre etanol e gasolina nas bombas.
Os indicadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Esalq USP mostravam pressão sobre o etanol hidratado negociado em São Paulo no início da moagem. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis acompanha a resposta no varejo, onde o repasse costuma ocorrer com atraso e varia entre praças.
Safra começa com mais etanol e pressão nos preços
A oferta mais folgada no Centro-Sul muda o tom das negociações. Distribuidoras tendem a comprar de forma cautelosa quando percebem avanço da moagem, sobretudo em semanas de clima favorável ao corte. Para as usinas, vender etanol cedo ajuda no giro financeiro, mas reduz o espaço para sustentar preços quando o mercado enxerga maior disponibilidade.
A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia divulga boletins quinzenais que permitem acompanhar moagem, produção de açúcar, fabricação de etanol e qualidade da cana. Esses dados são a principal referência para medir se a safra começou mais voltada ao adoçante ou ao biocombustível. Em junho, o mercado observa produtividade agrícola e teor de açúcares totais recuperáveis, porque eles indicam o fôlego industrial dos meses seguintes.
A Companhia Nacional de Abastecimento mantém a leitura de que o Centro-Sul concentra a maior parte da produção nacional de cana. Por isso, qualquer alteração de ritmo em São Paulo, Goiás, Minas Gerais e Paraná mexe no balanço doméstico. Quando o tempo ajuda a colheita, o etanol chega em volume maior e pressiona cotações.
Açúcar reage com clima no radar externo
No açúcar, a fotografia é diferente. Os contratos futuros negociados na ICE oscilaram entre tentativas de recuperação e ajustes diários, com operadores atentos ao clima em regiões produtoras e ao tamanho da oferta asiática. O Brasil segue competitivo nas exportações, mas o mercado internacional ainda precifica riscos quando há dúvida sobre produtividade, logística ou disponibilidade de embarque.
Para o setor brasileiro, a reação externa melhora a referência de paridade de exportação e pode reforçar a preferência das usinas por açúcar quando a margem supera a do etanol. A percepção entre agentes de mercado é que ajustes de posição de fundos e os sinais sobre a produção nos principais países fornecedores influenciam o humor dos negócios no curto prazo.
Esse movimento não elimina a volatilidade. Câmbio, fretes, fila nos portos e preço da energia entram na conta diária das usinas. Se o etanol continuar pressionado e o adoçante ganhar prêmio, a safra pode caminhar com maior atenção ao mercado externo.
Para produtores e compradores, o ponto central de junho é acompanhar dados oficiais antes de concluir tendência. Cepea Esalq, Unica, Conab, ANP e ICE oferecem as séries que ajudam a separar ruído de mercado de mudança estrutural. Neste início de ciclo, a porteira abriu com etanol mais ofertado e açúcar tentando recuperar terreno fora do país.