Polarização entre Cepeda e De la Espriella pode alterar produção e exportação do terceiro maior cafeicultor do mundo, com reflexos diretos para o agronegócio do Brasil
Pode um pleito eleitoral na Cordilheira dos Andes mudar o preço da saca de café em Minas Gerais? A resposta é sim, e os cafeicultores brasileiros já estão de olho no segundo turno colombiano. O país vizinho, terceiro maior produtor global de café, vive uma disputa acirrada entre Miguel De la Espriella, candidato de ultradireita que saiu na frente no primeiro turno, e o progressista Iván Cepeda. A diferença entre eles foi apertada, e o atual presidente Gustavo Petro já contestou o resultado.
Só que a briga não ficou restrita à política. Os títulos do governo colombiano dispararam com a vantagem de De la Espriella, segundo dados da Reuters. O mercado financeiro enxerga nele um perfil mais liberal e pró-mercado. Já Cepeda representa a continuidade da intervenção estatal na economia. E não para por aí. A justiça eleitoral rejeitou as alegações de Petro, e observadores internacionais foram convocados em número recorde para fiscalizar o segundo turno.
Mas a verdade é que, para o cafeicultor brasileiro, o que importa mesmo é o que vem depois da apuração. A Colômbia produz um café arábica de altitude, reconhecido mundialmente pela qualidade. Qualquer mudança na política agrícola de lá mexe com a oferta global e, consequentemente, com os preços pagos ao produtor daqui. Pois é, o mundo é mesmo uma grande lavoura interconectada.
O que o resultado das urnas representa para a Colômbia
De la Espriella chegou na frente no primeiro turno, mas não conseguiu a vitória absoluta. Cepeda vem logo atrás, pronto para um segundo turno que promete ser tão tenso quanto inédito. Os dois projetos são opostos. De um lado, a aposta na abertura comercial e na redução do estado. Do outro, a manutenção das políticas de intervenção iniciadas por Petro. O mercado financeiro já deu seu recado, com os títulos do governo subindo forte, informação da Reuters que circulou nas mesas de operação.
A contestação de Petro ao resultado do primeiro turno foi rejeitada pela justiça eleitoral colombiana. Mesmo assim, o clima segue tenso. A France 24 reportou que o número de observadores internacionais para este segundo turno será o maior da história recente do país. Uma tentativa de garantir que não haja questionamentos no final. Mas a dúvida que fica é se a polarização vai parar na urna ou se vai contaminar também o campo.
Os impactos para o café brasileiro e o agro
A Colômbia é o terceiro maior produtor de café do mundo, atrás apenas do Brasil e do Vietnã, segundo dados da International Coffee Organization. Só que o cenário atual não é dos mais animadores. A produção colombiana despencou 36% em fevereiro de 2026, de acordo com relatório da StoneX, totalizando apenas 869 mil sacas. Uma queda que acendeu o alerta no setor.
E não é só a natureza que está cobrando seu preço. A crise de mão de obra no campo colombiano é grave, como reportou o The Guardian recentemente. Os jovens estão deixando as lavouras de café para tentar a vida nas cidades. Encontrar trabalhadores para a colheita nas montanhas virou um desafio logístico e financeiro. Tirar leite de pedra, como se diz na roça.
Dependendo de quem vencer, a política agrícola pode estimular ou inibir a recuperação da cafeicultura colombiana. Um governo De la Espriella, mais liberal, tenderia a abrir o setor para investimentos privados e facilitar a mecanização. Já Cepeda, mantendo a linha de Petro, preservaria subsídios e controles estatais. Cada caminho tem um efeito diferente sobre a oferta de café no mercado internacional.
Para completar o cenário, a China abriu tarifa zero para o café africano, segundo movimentações recentes no comércio global. Isso significa que o gigante asiático está diversificando suas origens de suprimento. Para o Brasil, que já enfrenta concorrência direta do Vietnã no mercado de robusta, a notícia acende um alerta estratégico. Ainda mais com a instabilidade colombiana no ar.
O resultado das eleições na Colômbia não é apenas uma notícia de política internacional. É um vetor concreto de competitividade que o agro brasileiro precisa monitorar de perto. Cada saca que deixa de ser produzida em terras colombianas abre uma janela para o Brasil, mas também acende um sinal de alerta sobre a dependência de mercados instáveis. No fim das contas, a porteira de casa é que precisa estar sempre bem fechada.
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