Gênio pernambucano tem apenas 14 anos, já ganhou medalha de ouro em Londres e vai representar o Brasil na Genius Olympiad, em Nova Iorque esse ano
O sol batendo forte no chão rachado é uma cena que todo produtor do sertão brasileiro conhece bem, infelizmente. Ficar olhando o nível da cisterna baixar enquanto faz as contas na ponta do lápis para saber se o dinheiro do fim do mês vai cobrir os custos é desgastante. Quem vive da terra sabe que sem água o manejo não anda, o gado perde peso rapidamente e a lavoura definha, mas o custo operacional para bombear esse recurso precioso muitas vezes devora a pouca liquidez que sobra “da porteira para dentro“.
Puxar água de um poço ou de uma cacimba exige energia, e com o preço da luz nas alturas e o diesel pesando no frete, o pequeno e médio produtor acaba ficando de mãos atadas, dependendo do esforço braçal descomunal ou da sorte de uma chuva que, vamos ser sinceros, nem sempre vem na hora que a gente precisa. Esse cenário de sufoco causado pelos custos fixos é o que motiva a busca por alternativas que não sangrem o bolso do produtor.
O vento que trabalha de graça para o produtor rural
Foi olhando de frente para essa dificuldade real, conversando com quem lida com a dureza do campo lá em Bom Jardim, no interior de Pernambuco, que o jovem estudante de apenas 14 anos decidiu que a solução não precisava ser cara e nem depender de tecnologia da NASA. Lucas Figueiredo percebeu que a maioria das famílias da região dependia de armazenar água da chuva e sofria no transporte pesado de baldes por longas distâncias.

A semente desse projeto não foi plantada ontem. Tudo começou numa feira de ciências da escola, enquanto Lucas ainda cursava o 6º ano do ensino fundamental. O estalo para a invenção veio das telonas, mas com foco total na realidade dura de quem enfrenta a estiagem. Ele mesmo explica a origem da ideia.
Minha inspiração maior veio do filme ‘O Menino que Descobriu o Vento’, que mostra a vida de um menino africano que criou uma bomba semelhante para resolver o problema da seca na sua comunidade” – explica o gênio pernambucano.
Ele colocou a cabeça para funcionar, inspirado pela necessidade prática, e criou uma bomba eólica feita quase inteiramente com materiais reciclados. Diferente daquelas bombas elétricas tradicionais que fazem o relógio da conta de luz girar rápido demais, o projeto do Lucas usa a força do vento, que é um recurso que a gente tem de sobra em boa parte do semiárido brasileiro, para fazer o serviço pesado. A lógica de funcionamento é simples e muito eficiente para quem precisa de autonomia no dia a dia rural: o vento bate nas hélices, que são adaptadas com materiais como garrafas PET, e faz um eixo girar. Esse movimento mecânico, através de um sistema de engrenagens, aciona um pistão que empurra a água para cima, sem precisar de uma gota de combustível fóssil ou de um fio ligado na rede elétrica da concessionária.
Só que, para tirar a ideia do papel e fazer a engrenagem girar de verdade, foi preciso unir o sonho à técnica. Com a orientação firme da professora Isabel Guaraná e o suporte do tio, o engenheiro elétrico Luciano Figueiredo, o jovem lapidou o conceito até entregar um protótipo funcional, pronto para o batente.
Do lixo para o manejo eficiente

O que chama a atenção nessa tecnologia social não é apenas o custo zero de energia, mas a facilidade de manutenção e o baixíssimo custo de implantação. Foram quatro anos de testes, quebrando a cabeça com ajustes no formato das hélices e mudanças nos materiais, para garantir que a bomba fosse “rústica” o suficiente para aguentar o tranco do campo. Para o produtor, isso significa uma vantagem estratégica: se uma peça estragar no meio da safra, ele mesmo consegue ajeitar usando o que tem no galpão de ferramentas, como tubos de PVC sobrando ou sucatas metálicas, sem precisar parar a operação para esperar um técnico especializado que cobra caro pelo deslocamento até a fazenda.
É um projeto onde tem impacto social. Ele leva água, para as populações carentes onde tem escassez de água. Iniciou aqui embaixo, mas ele foi subindo degraus e hoje a gente está na mundial.” – enaltece a professora orientadora, Isabel Luz Guaraná.




