Atualizando...

Déficit de Armazenagem em Mato Grosso: um entrave silencioso ao potencial agrícola

Vicente Delgado
29/07/2025 às 08:55
Déficit de Armazenagem em Mato Grosso: um entrave silencioso ao potencial agrícola

Em um cenário de superproduções agrícolas e mercado externo aquecido, o Mato Grosso se depara com um obstáculo menos visível, mas profundamente estratégico: a estagnação da capacidade de armazenagem. O mais recente relatório do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (IMEA), divulgado em julho de 2025, escancara um paradoxo inquietante – enquanto o estado colhe volumes recordes de grãos, falta espaço para guardá-los.

Armazenagem em MT

A safra 2024/25 de soja e milho no estado está estimada em 104,91 milhões de toneladas, um marco expressivo que reforça o protagonismo do Mato Grosso no agronegócio brasileiro. Porém, apenas 49,87% dessa produção poderá ser armazenada internamente. Os dados revelam um déficit de 52,60 milhões de toneladas, causado por uma capacidade estática que permanece em 52,32 milhões desde o ano anterior.

Déficit de Armazenagem em MT: um entrave silencioso ao potencial agrícola

O descompasso não é recente, tampouco pontual. Desde 2010/11, enquanto a produção anual cresce a um ritmo médio de 9,89%, a infraestrutura de armazenagem avança lentamente – apenas 4,25% ao ano. Essa disparidade estrutural é agravada por fatores como o alto custo de construção de armazéns e a ausência de políticas públicas que priorizem esse segmento. O resultado atinge, sobretudo, pequenos e médios produtores, que raramente dispõem de capital suficiente para investir em armazenagem própria.

Essa fragilidade impõe decisões comerciais pouco vantajosas. Incapazes de estocar seus grãos, muitos agricultores são forçados a vender parte da produção logo após a colheita – período em que os preços tendem a ser menores. Em outras palavras, a falta de armazenagem retira do produtor seu melhor trunfo: o tempo. Sem poder esperar o momento ideal de venda, perde-se margem de lucro e poder de negociação.

Paralelamente, o mercado internacional sinaliza oportunidades. O contrato da soja para março de 2026 em Chicago subiu 0,66%, cotado a US$ 10,56/bu. O prêmio portuário de Santos, refletindo a demanda global, teve alta de 1,45%. Os coprodutos seguem a mesma tendência: o óleo de soja valorizou 1,56% na CME-Group, impulsionado pelo otimismo com os biocombustíveis nos Estados Unidos, enquanto o farelo cresceu 1,42% devido à expectativa de compras pelas Filipinas. No mercado local, o óleo encerrou a semana a R$ 6.142,27/t.

Déficit de Armazenagem em MT: um entrave silencioso ao potencial agrícola

Contudo, tais indicadores de otimismo nem sempre alcançam o produtor mato-grossense em sua plenitude. Com um sistema logístico pressionado e armazenagem insuficiente, boa parte da vantagem comercial escorre pelos dedos. O frete entre Sorriso e Miritituba, por exemplo, fechou o período a R$ 332,22/t – um custo que, somado às vendas apressadas, dilui os ganhos potenciais da alta internacional.

É preciso, portanto, reposicionar o debate sobre infraestrutura agrícola. Armazéns não são meros depósitos – são instrumentos de poder econômico. Garantem autonomia ao produtor, reduzem pressões sazonais de oferta e permitem decisões comerciais mais estratégicas. Ignorar isso é aceitar que o crescimento do agronegócio brasileiro continue capenga, forte na produção, frágil na estrutura.

O Mato Grosso colhe muito. Mas, enquanto armazenar continuar sendo um luxo para poucos, o verdadeiro potencial da sua agricultura seguirá, ironicamente, encaixotado.

AGRONEWS é informação para quem produz

armazenagem armazens Mato Grosso soja

Compartilhe esta notícia: