A colheita da mandioca recomeça, mas a cautela do produtor dita o ritmo do mercado, confira!
Companheiro do agro, você sabe bem como o campo tem seu próprio tempo, muitas vezes ditado pelo céu. As chuvas que passaram por muitas regiões produtoras deram uma trégua, permitindo a retomada dos trabalhos. No entanto, a movimentação de máquinas e equipes na lavoura está mais lenta do que o mercado esperava. A razão não é apenas o solo úmido, mas uma conta que todo produtor faz de cabeça: vale a pena colher agora?
Segundo o mais recente levantamento do Cepea, muitos agricultores estão respondendo que não. Com a produtividade abaixo do esperado e o teor de amido nas raízes deixando a desejar, a atratividade da comercialização diminuiu. Esse cenário de hesitação segura os preços, mas cria um impasse que afeta toda a cadeia produtiva, da terra à indústria.
O cenário atual da colheita de raiz de mandioca
Vamos olhar para os números para entender melhor essa história. O Cepea aponta que, na segunda semana de novembro, o valor médio da tonelada de mandioca posta na fecularia ficou em R$ 565,81. Esse valor representa uma leve queda de 1,1% em relação à semana anterior, mas, quando olhamos o quadro geral do mês, a média ainda está 0,6% acima da de outubro. O que isso nos diz? Que a baixa oferta, causada pelo ritmo lento da colheita, está impedindo uma queda mais acentuada nos preços. É a velha lei da oferta e da procura em ação. Se poucos produtores estão dispostos a vender, a indústria precisa manter os preços em um patamar razoável para garantir a matéria-prima.
Mesmo assim, para o mandiocultor, o valor atual pode não compensar o baixo rendimento da lavoura. A baixa velocidade da colheita de raiz de mandioca se tornou um mecanismo de defesa do produtor.
Produtividade e amido: os dois pesos na balança
Para quem está de fora, pode parecer que colher e vender é sempre o melhor caminho. Mas na cultura da mandioca, especialmente a destinada à indústria, dois fatores são reis: produtividade e teor de amido. A produtividade é a quantidade de toneladas que se consegue colher por hectare.
Já o teor de amido é o percentual de amido contido na raiz, que é a matéria-prima principal para as fecularias. A indústria não paga apenas pelo peso da raiz, mas principalmente pela quantidade de amido que consegue extrair dela. É como vender laranja para uma fábrica de suco; o que mais importa é a quantidade de suco, não o peso da casca. Quando o produtor relata que esses dois indicadores estão baixos, significa que ele precisaria colher uma área maior para obter o mesmo retorno financeiro, aumentando seus custos e o desgaste de seu equipamento. A Embrapa reforça que as condições climáticas, o manejo do solo e a idade da planta no momento da colheita são determinantes para a concentração de amido nas raízes.
A decisão do mandiocultor: colher agora ou esperar?
O produtor se encontra em uma encruzilhada, e a decisão de acelerar ou frear a colheita de raiz de mandioca envolve analisar diversos riscos e potenciais recompensas. É uma aposta calculada, onde a experiência de campo vale ouro. De um lado, a colheita imediata pode parecer a opção mais segura para garantir alguma renda e liberar a terra para o próximo ciclo de plantio. Do outro, a paciência pode ser uma virtude que se traduz em mais dinheiro no bolso. Vamos listar os pontos que o agricultor está ponderando nesse exato momento:
- Colher agora: Garante um fluxo de caixa imediato, evita perdas por pragas ou doenças que podem atacar a lavoura se ela ficar no campo por mais tempo e libera a área para preparo e um novo plantio;
- Esperar mais um pouco: Permite que a raiz se desenvolva mais, potencialmente aumentando o peso e, principalmente, o teor de amido, o que melhora o preço por tonelada. Além disso, o produtor pode apostar em uma melhora dos preços de mercado se a oferta continuar restrita;
- Aguardar melhores condições do solo: Com o solo mais seco, a operação de colheita mecanizada se torna mais eficiente, rápida e com menor custo, além de preservar a estrutura do solo.
Essa análise mostra que a lentidão na colheita de raiz de mandioca não é por acaso, mas sim uma estratégia de gestão de risco do produtor rural.
O olhar da indústria e as perspectivas de mercado
Enquanto o produtor faz suas contas, a indústria de fécula observa com atenção. A falta de matéria-prima pode significar capacidade ociosa nas fábricas, o que gera custos e pode dificultar o cumprimento de contratos. A fécula de mandioca é um ingrediente versátil, usado em indústrias de alimentos, frigoríficos, têxteis, de papel e muitas outras. Portanto, uma quebra no fornecimento na base da cadeia pode gerar ondas por todo o mercado. A citação dos pesquisadores do Cepea resume perfeitamente o sentimento no campo:
Segundo pesquisadores do Cepea, muitos produtores ainda mostram pouco interesse em avançar com os trabalhos, alegando ser reduzida a atratividade da comercialização da raiz. De acordo com esses mandiocultores, a produtividade e o teor de amido estão baixos.
Essa declaração evidencia o cabo de guerra atual. A indústria precisa da raiz, mas o produtor só irá acelerar a colheita de raiz de mandioca quando a remuneração justificar os baixos índices de qualidade do produto. Nas próximas semanas, o mercado deverá acompanhar de perto o clima e a disposição dos mandiocultores, fatores que irão definir a direção dos preços e o ritmo da oferta.
Em resumo, o que vemos no mercado de mandioca é um retrato fiel dos desafios do agronegócio. A retomada das atividades após as chuvas trouxe alívio, mas também expôs uma realidade complexa, onde a decisão de colher vai muito além de simplesmente tirar a raiz da terra. É um cálculo que envolve clima, biologia da planta, tecnologia e, acima de tudo, economia. Clique aqui e acompanhe o agro.
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