Abrimos a primeira semana de junho com os termômetros do mercado global nas alturas. O fim de semana não trouxe a sonhada calmaria diplomática; pelo contrário, a renovação das hostilidades no Oriente Médio ditou um tom de cautela profunda logo na abertura das bolsas. Para o produtor brasileiro, a segunda-feira exige uma leitura aguçada de contrastes: enquanto o cenário externo puxa as cotações de energia para cima, a realidade do nosso campo pressiona os preços do milho para baixo.
Abaixo, detalho os fundamentos que estão guiando as suas decisões de comercialização hoje.
O choque energético e a barreira dos US$ 93
O xadrez geopolítico entre Estados Unidos e Irã continua sem um horizonte claro de paz, e o mercado precificou esse risco de forma agressiva. Com as ameaças pairando sobre a oferta no estratégico Estreito de Ormuz, o petróleo tipo Brent saltou cerca de 3% no início desta semana, batendo na porta dos US$ 93 o barril.
É fundamental colocarmos esse número em perspectiva: embora o barril tenha amargado quedas expressivas ao longo do mês de maio, o saldo acumulado deste ano já aponta uma valorização de 55%. Essa resiliência na alta da energia é um alerta direto para a nossa cadeia, pois encarece o frete logístico e altera a composição de custos de insumos para os próximos ciclos.
Complexo Soja: O fôlego do petróleo e a tranquilidade no campo americano
Na Bolsa de Chicago (CBOT), a soja abriu a semana no campo positivo. Vale notar, no entanto, que esse movimento de alta não é necessariamente sustentado por fundamentos agrícolas de escassez, mas sim pelo reboque do complexo energético e pela forte tensão geopolítica global.
Da porteira para dentro nos Estados Unidos, o cenário é de bastante tranquilidade. O mercado vem digerindo muito bem o desenvolvimento da nova safra americana e as condições climáticas favoráveis que permitiram uma conclusão de plantio sem sobressaltos. Continuamos monitorando o comportamento do El Niño com lupa, mas, até este momento, não há indicativos de ameaças críticas à produtividade norte-americana.
Milho: A pressão das colheitadeiras no Brasil
Se lá fora o clima dita os rumos, aqui dentro é o barulho das máquinas que comanda os preços. O início da colheita do milho safrinha em polos cruciais como Mato Grosso e Paraná já exerce uma forte pressão negativa sobre as cotações domésticas.
Dados recentes do Cepea ilustram bem esse cenário: os preços atuais estão operando em patamares inferiores aos do início da temporada 2024/25. Para se ter uma ideia, as médias parciais de maio em Sorriso (MT) e no Norte do Paraná ficaram 11% e 8% menores, respectivamente, na comparação com maio do ano passado. Somado a isso, o excelente ritmo de semeadura nos EUA limita a nossa paridade de exportação. O resultado é um mercado interno travado, com compradores na retranca, aguardando que o avanço da colheita em junho derrube as cotações um pouco mais.
O Câmbio: Queda pontual, mas com fundamentos altistas
O comportamento do dólar nesta manhã exige uma leitura cuidadosa. Embora a moeda americana opere em baixa neste primeiro momento do dia, o pano de fundo do mercado (as notícias e os fundamentos) é majoritariamente altista.
A piora do ambiente externo, impulsionada pela escalada das tensões no Oriente Médio e pela subida nos rendimentos dos Treasuries (títulos do tesouro americano), eleva a aversão ao risco global. Essa combinação de fatores interrompe a sequência de quedas das sessões anteriores e fortalece estruturalmente a moeda americana frente a divisas fortes e emergentes. Portanto, o recuo de hoje pode ser apenas um respiro antes de novas valorizações.
O que você precisa levar no radar hoje: Para resumir o cenário desta segunda-feira e guiar sua estratégia comercial, destaco os pontos vitais:
Soja firme em Chicago: A oleaginosa sobe na CBOT, surfando na onda de valorização do petróleo e no nervosismo geopolítico, ignorando momentaneamente o clima favorável nos EUA.
Petróleo a US$ 93: O risco de estrangulamento na oferta global pelo Estreito de Ormuz faz o Brent subir 3%, acumulando 55% de alta no ano.
Pressão no Milho BR: O início da colheita em MT e PR derruba as cotações internas (abaixo dos níveis de maio/25), afastando os compradores que aguardam novas quedas.
Clima favorável nos EUA: Semeadura americana bem-sucedida e ausência de impactos severos do El Niño até o momento limitam qualquer prêmio de risco climático grave.
Dólar com viés de alta: Apesar de recuar pontualmente nesta manhã, o cenário externo turbulento e os juros altos nos EUA formam uma base altista para a moeda americana.
Em dias de alta complexidade global e avanço de colheita local, a proteção de margens é a melhor ferramenta. Seguimos monitorando as telas e o campo físico ao seu lado.
Por Luiz Cunha – Consultor de mercado físico de grãos e fertilizantes