O debate sobre agroindustrialização ganhou peso em Mato Grosso porque a produção já saiu da fase da promessa. O desafio, agora, é fazer a riqueza circular por mais tempo dentro do Estado.
O governo estadual levou essa agenda ao Fórum do Setor Produtivo da 57ª Expoagro, em Cuiabá, com a participação do vice-governador Otaviano Pivetta na mesa “A Agroindustrialização em MT”. A mensagem pública foi direta, sem enfeite, ao defender condições para que grãos, fibras, carnes e insumos deixem de seguir apenas como matéria-prima.
É uma conta de chegada.
Mato Grosso ocupa a liderança nacional na produção de soja, milho, algodão e boi gordo. A escala impressiona porteira adentro e também nos corredores de exportação. Só que a força do campo ainda convive com uma lacuna antiga, conhecida por produtores, cooperativas e indústrias, pois boa parte do valor fica depois da primeira venda.
Da produção recorde à disputa por valor agregado
Na prática, o Estado planta, colhe, engorda, embarca e ajuda a abastecer o Brasil e o exterior. Quando a matéria-prima sai sem passar por etapas industriais locais, perdem-se oportunidades de emprego técnico, renda urbana, arrecadação municipal e encadeamento com serviços. A verdade é que liderança agropecuária não vira, automaticamente, liderança industrial.
Pivetta tratou o tema como uma etapa de amadurecimento econômico. O governo afirma trabalhar para reduzir entraves e dar previsibilidade a quem deseja investir em esmagamento de soja, etanol de milho, proteína animal, beneficiamento de algodão, bioinsumos, sementes, alimentos e outras cadeias capazes de capturar margem adicional. Não é troca de vocação. É expansão dela.
Pois é, a terra deu resposta. Falta fazer a indústria responder na mesma velocidade.
Infraestrutura, inspeção e ambiente industrial entram no centro da estratégia
A agenda passa por estrada, energia, licenciamento, logística, inspeção sanitária e segurança jurídica. Sem isso, a fábrica não se instala ou opera apertando o cinto, com custo alto demais para disputar mercado com regiões mais próximas de portos, centros consumidores e fornecedores de peças, máquinas e mão de obra especializada.
Entre os sinais recentes, a pavimentação da BR-174, no trecho entre Juína, em Mato Grosso, e Vilhena, em Rondônia, teve garantia anunciada pelo DNIT. A ligação interessa especialmente ao noroeste mato-grossense, área com produção em expansão, distâncias longas e necessidade de rotas mais estáveis para entrada de insumos e saída de produtos.
Outro ponto em discussão envolve os chamados ecodutos. A Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso aprovou projeto relacionado à implantação dessas estruturas em rodovias e ferrovias, medida que busca compatibilizar obras de transporte com a proteção da fauna. Detalhe, infraestrutura moderna também precisa reduzir conflito ambiental para não travar no meio do caminho.
No chão dos municípios, a inspeção ganha papel decisivo. O encontro estadual sobre inspeção municipal foi tratado como impulso à agroindústria familiar, justamente onde pequenas plantas de queijo, embutidos, mel, pescado, doces, mandioca e derivados podem sair da informalidade e acessar mercados locais ou regionais com regras claras. Sem selo, a produção fica curta. Com organização, pode ganhar prateleira.
A Ferrogrão também aparece no pano de fundo dessa estratégia. Embora ainda dependa de decisões institucionais e ambientais, o projeto é visto por setores produtivos como peça relevante para aliviar a pressão logística no escoamento de grãos. Agora, para a industrialização, ferrovia não basta; ela precisa conversar com polos industriais, armazéns, frigoríficos, esmagadoras e terminais.
Competitividade de MT já aparece nos dados, mas gargalos ainda definem o ritmo
O ponto de partida não é frágil. Mato Grosso aparece entre os dez estados mais competitivos do país no ranking de competitividade industrial da Confederação Nacional da Indústria, a CNI. A Federação das Indústrias no Estado de Mato Grosso, a FIEMT, registra mais de 16 mil indústrias instaladas no território mato-grossense.
Esses números mostram que a base existe, embora desigual. Há municípios com vocação consolidada, corredores logísticos mais adiantados e empresários dispostos a ampliar plantas. Em outros pontos, a distância, a falta de escala industrial local, o custo de energia, a qualificação profissional e o tempo de regularização ainda pesam na ponta do lápis.
Sinop ilustra bem a virada possível. O município lidera as exportações brasileiras de sementes para plantio, um segmento que exige tecnologia, controle de qualidade, rastreabilidade e conexão com a pesquisa. Não é commodity bruta embarcada sem identidade. É produto com especificação, marca, serviço técnico e valor agregado antes de sair da região.
O pulo do gato está em multiplicar casos assim sem vender ilusão. Agroindustrializar não significa transformar cada cidade em grande distrito fabril, nem substituir a competitividade da lavoura por projetos artificiais. Significa escolher cadeias viáveis, organizar infraestrutura, simplificar o ambiente de negócios e garantir que o produtor tenha alternativas além do caminhão carregado rumo ao porto.
Para o governo de Mato Grosso, a tarefa declarada é criar condições. Para o setor privado, a decisão seguirá sendo investimento, risco e mercado. Entre uma coisa e outra, existe uma janela concreta. O Estado que já lidera no volume tenta agora disputar qualidade da renda, densidade industrial e empregos melhores. Na lida do agro, isso pode separar crescimento de desenvolvimento.
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Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Jornalista e fundador do Agronews, Vicente Delgado acompanha de perto o agronegócio brasileiro, com cobertura de mercados, política agrícola, commodities, pecuária e grandes eventos do setor.