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Leite a R$ 2,65 com alta de 33% desafia logica do mercado

Ordenha de gado leiteiro em fazenda no Mato Grosso com tanque de resfriamento ao fundo durante o final da tarde

Preço ao produtor dispara 33% em cinco meses com produção recorde de 35,7 bilhões de litros em 2024, enquanto GDT recua no mercado internacional e projeção do Conseleite aponta primeiro recuo nominal em cinco meses.

O paradoxo do leite brasileiro

O leite brasileiro acaba de atingir um patamar que parecia inalcançável. O Cepea/Esalq fechou abril de 2026 a R$ 2,6584 por litro. A alta foi de 11,12% no mês, acumulando 33,2% desde o piso de R$ 1,9966/L de dezembro (Cepea/Esalq). A recuperação é vigorosa, mas traz uma interrogação que incomoda os analistas. Como os preços sobem tanto se a produção nacional bateu recorde de 35,7 bilhões de litros em 2024 e o GDT, referência global do leite em pó integral, registrou US$ 3.721 por tonelada em trajetória de queda continuada (GDT Pulse)?

Ordenha mecanizada em fazenda leiteira no Mato Grosso com gado nelore durante o final da tarde

Três fatores explicam essa trajetória. O primeiro é sazonal: a entressafra de outono e inverno reduz a oferta e eleva o poder de barganha do produtor. O segundo é cambial: o dólar Ptax a R$ 5,1244 sustenta a paridade de exportação e encarece as importações (BCB). O terceiro é estrutural: milho e farelo de soja, principais insumos da alimentação do rebanho, permanecem pressionados pelo câmbio, deslocando para cima o preço de equilíbrio do produtor.

O mosaico regional e o gap de Mato Grosso

A média nacional esconde disparidades profundas. O Cepea/Esalq revela uma hierarquia de preços em nove estados: Paraná (R$ 2,7596/L) e Minas Gerais (R$ 2,7534/L) lideram; Bahia (R$ 2,3536/L) e Espírito Santo (R$ 2,2934/L) fecham a lista (Cepea/Esalq). O caso mais emblemático é Mato Grosso. Segundo o IMEA, o preço médio no estado fechou abril a R$ 2,13/L com alta de apenas 4,13% no mês, bem abaixo dos 11,12% da média nacional. O gap é de 19,9% entre o preço mato-grossense e a média Brasil (IMEA).

O IMEA divide o estado em sete regiões. A amplitude vai de R$ 1,94/L no Noroeste a R$ 2,32/L no Sudeste. A região Oeste chama a atenção pela maior variação mensal (+11,63%) partindo de R$ 1,98/L, sinal de recuperação tardia puxada por maior concorrência entre laticínios (IMEA). As causas do gap são estruturais: logística deficiente, menor densidade de indústrias e dependência do mercado spot.

Alertas no horizonte

A projeção do Conseleite para maio de 2026 é de R$ 2,4478/L, valor 7,9% inferior ao Cepea de abril (Conseleite). Se confirmada, será a primeira queda nominal em cinco meses. Enquanto isso, o dólar a R$ 5,1244 funciona como faca de dois gumes: sustenta os preços internos via barreira às importações, mas pressiona os custos de produção com insumos dolarizados.

O cenário mais provável, na avaliação de analistas, é de correção moderada. Com a safra de primavera a partir de setembro e o GDT em trajetória baixista, o Cepea pode recuar para a faixa de R$ 2,20 a R$ 2,40/L no médio prazo. A recuperação de 33% é real e bem fundamentada, mas o patamar atual parece estar próximo do teto do ciclo.

O momento é de aproveitar os preços elevados e considerar instrumentos de gestão de risco. O produtor que trata o patamar atual como janela de oportunidade, e não como nova normalidade, sai na frente.

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Foto de Vicente Delgado

Sobre o autor

Vicente Delgado

DRT 2364/MT

Jornalista e fundador do Agronews, referência em informações sobre o agronegócio brasileiro. Com mais de 15 anos de experiência no setor, acompanha de perto as principais commodities, políticas agrícolas e tendências do mercado rural.

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