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Grupo chinês avalia usina de lixo em energia em MT

Executivos chineses e brasileiros em reuniao institucional sobre projeto de usina de lixo em energia em Mato Grosso

Energia limpa também pode nascer do que antes ficava sem destino

O grupo chinês Zhongtuo iniciou em Mato Grosso uma rodada de reuniões para avaliar a instalação de uma usina capaz de transformar resíduos sólidos em eletricidade. A comitiva chegou ao estado na segunda-feira, 1º de junho, e cumpre agenda até esta quinta-feira, 4 de junho, com interlocução da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e da Invest MT.

A visita mira uma frente ainda pouco explorada no país. Lixo urbano, sobras orgânicas e rejeitos tratados com tecnologia adequada podem virar energia. Só que, para sair do papel, esse tipo de projeto precisa combinar escala, licenciamento, tarifa, logística e incentivo fiscal na ponta do lápis.

Recebidos por representantes estaduais, os investidores apresentaram alternativas ligadas à infraestrutura energética e à transição para matrizes mais limpas. Linacis Vogel Lisboa, secretária adjunta de Agronegócios, Crédito e Energia da Sedec, participou das conversas, o que aproximou a pauta do setor produtivo rural.

Comitiva chinesa avalia projeto de energia a partir de resíduos em Mato Grosso
Projeto em análise pode conectar tratamento de resíduos, geração elétrica e novas oportunidades para Mato Grosso

Projeto busca transformar resíduo em eletricidade

A tecnologia central em avaliação é conhecida como Waste-to-Energy, ou WTE, modelo que usa processos térmicos controlados para tratar resíduos sólidos e gerar energia elétrica. Não se trata apenas de queimar lixo. O desenho exige controle ambiental, triagem, monitoramento de emissões e uma conta de chegada que faça sentido.

Detalhe, a missão chinesa também discutiu biomassa, biometano e gás natural liquefeito. Esses caminhos não competem necessariamente entre si. Em muitos casos, podem formar um conjunto de soluções, no qual cada tipo de resíduo recebe destinação conforme volume, composição, distância de transporte e capacidade de aproveitamento energético.

A Sedec-MT e a Invest MT tratam a agenda como oportunidade para atrair capital, tecnologia e novos modelos de infraestrutura. Incentivos fiscais entraram na mesa como possíveis viabilizadores do empreendimento, especialmente porque projetos desse porte costumam exigir investimento elevado antes de gerar receita estável.

Pois é, o tema aparece em um momento em que cidades brasileiras ainda enfrentam dificuldades para reduzir aterros e dar destino adequado aos rejeitos. Uma unidade WTE, quando bem estruturada, pode diminuir passivos ambientais e ampliar a oferta local de energia, mas depende de contratos duradouros.

Agro entra na conversa pela força dos resíduos

Mato Grosso tem peso nacional na produção agropecuária. Esse protagonismo aparece na soja, no milho, no algodão, na pecuária e em cadeias de proteína animal. A verdade é que tamanho volume produtivo também gera grande quantidade de resíduos orgânicos, e parte desse material pode ganhar valor quando passa a ser visto como insumo energético.

Porteira adentro, a lógica muda. Dejetos da suinocultura, resíduos da avicultura, restos de culturas agrícolas e subprodutos industriais podem alimentar rotas de biomassa e biometano. Agora, cada cadeia exige tratamento próprio, porque um resíduo úmido, um material fibroso e um rejeito urbano não entram na mesma planta com a mesma eficiência.

Essa diferença ajuda a explicar por que as conversas envolveram mais de uma tecnologia. O WTE tende a conversar melhor com resíduos sólidos urbanos e rejeitos selecionados. Já o biometano encontra espaço em efluentes e materiais orgânicos de origem animal ou agroindustrial. A biomassa, por sua vez, pode atender demandas térmicas e elétricas quando há oferta contínua e logística viável.

Para o produtor, o ganho potencial não está apenas na geração de energia. Há também redução de passivos, melhoria sanitária e receita adicional em propriedades ou agroindústrias que convivem com custos crescentes. O fato é que sustentabilidade, no campo, precisa ficar de pé no barro e fechar as contas.

Agenda em Cuiabá aponta próximos passos

Além das reuniões com o governo estadual, a comitiva manteve diálogo com a Prefeitura de Cuiabá e também foi recebida em Várzea Grande pela prefeita Flávia Moretti. O roteiro coincide com a FIT Pantanal Business Meeting 2026, marcada de 4 a 7 de junho, em Cuiabá.

A presença do grupo Zhongtuo, conglomerado ligado a estatais de infraestrutura e energia da Província de Sichuan, ainda representa uma fase de avaliação. Não há anúncio definitivo de implantação. Mesmo assim, a agenda sinaliza que Mato Grosso entrou no radar de empresas interessadas em saneamento, energia e cadeias produtivas.

Se o projeto avançar, os próximos passos devem envolver estudos técnicos, análise de localização, volume disponível de resíduos, modelagem econômica, licenciamento ambiental e definição de arranjos com municípios ou consórcios. É nesse ponto que o discurso de inovação passa pelo teste mais duro, porque tecnologia boa só vira investimento quando contrato, operação e risco caminham juntos.

Para Mato Grosso, a oportunidade é clara. Transformar lixo e resíduos agropecuários em energia pode reduzir problemas urbanos, abrir frente para o agro e reforçar a imagem de um estado que produz muito, mas também precisa inovar no destino do que sobra.

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Sobre o autor

Vicente Delgado

DRT 2364/MT

Jornalista e fundador do Agronews, Vicente Delgado acompanha de perto o agronegócio brasileiro, com cobertura de mercados, política agrícola, commodities, pecuária e grandes eventos do setor.

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