Soja (MT)R$ 139,41-0.20%
Milho (MT)R$ 47,90-1.16%
Algodão (MT)R$ 132,31+0.67%
Boi Gordo (MT)R$ 334,01+0.60%
Leite (MT)R$ 2,39-0.30%
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El Niño e calor em Mato Grosso: o risco para a soja vai além da falta de chuva

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El Niño e calor em Mato Grosso o risco para a soja vai além da falta de chuva

INMET prevê outubro mais quente e com chuva abaixo da média no estado; pesquisas mostram por que o aquecimento global precisa entrar na avaliação dos extremos.

Mato Grosso entra em outubro sob previsão de chuvas abaixo da média e temperaturas elevadas, uma combinação que pode dificultar o estabelecimento da nova safra de soja. O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) aponta que a irregularidade das precipitações e a menor disponibilidade de água no solo poderão comprometer a uniformidade da emergência das plantas e aumentar o risco de replantio.

O alerta ocorre durante o fortalecimento do El Niño. Mas atribuir todo episódio de calor ao aquecimento do Pacífico deixa de fora uma mudança documentada: as ondas de calor no Brasil se tornaram mais frequentes nas últimas décadas, e o fenômeno atua sobre um planeta que já está mais quente. Estudos do Cemaden e da rede científica World Weather Attribution permitem separar essas duas influências.

O calor já chegou às estações de Mato Grosso

Em Nova Xavantina, a temperatura alcançou 43,3 °C na tarde de 28 de setembro, segundo dados parciais do INMET registrados até as 16h de Brasília. Considerando os dias 27 e 28, 21 estações de Mato Grosso registraram máximas iguais ou superiores a 40 °C.

Para outubro, o prognóstico mensal indica chuva abaixo da média no estado e temperaturas superiores à climatologia. Na avaliação agrícola do instituto, o calor pode acelerar a perda de água do solo, enquanto precipitações irregulares dificultam a formação de condições adequadas para a semeadura. Pastagens e áreas irrigadas também ficam expostas, respectivamente, a limitações no crescimento e à maior necessidade de reposição de água. São riscos previstos, cuja concretização dependerá das condições observadas ao longo do mês.

El Niño intensifica um calor que tem outras causas

A Nota Técnica nº 645/2026 do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), divulgada em maio, identifica aumento contínuo das ondas de calor nas últimas quatro décadas. O órgão informa que esses eventos vêm se intensificando em todos os estados desde o início dos anos 2000 e podem se agravar em períodos de El Niño.

Um estudo sobre o calor de setembro de 2023 na América do Sul mostra a importância de investigar cada episódio. A World Weather Attribution concluiu que a mudança climática causada pela atividade humana tornou o evento analisado pelo menos cem vezes mais provável. Sem esse aquecimento, as temperaturas teriam sido entre 1,4 °C e 4,3 °C menores. A contribuição direta do El Niño para aquele calor foi pequena em comparação com o sinal da mudança climática.

Esses resultados se referem ao episódio de 2023. Não representam uma medição da contribuição de cada fator para o calor registrado em Mato Grosso neste setembro.

No diagnóstico de 10 de setembro de 2026, a agência americana NOAA apontou probabilidade superior a 90% de um El Niño muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026/27. O documento também esclarece que a maior intensidade eleva as chances de impactos associados ao fenômeno, sem garantir sua ocorrência em cada região.

Na lavoura, a distribuição da água muda o resultado

Para a soja, temperatura e disponibilidade hídrica precisam ser avaliadas juntas. A Embrapa informa que temperaturas acima de 40 °C podem prejudicar o crescimento, provocar danos à floração e reduzir a retenção de vagens. Esses problemas se acentuam quando há déficit hídrico simultâneo.

Previsão de desvios de precipitação e temperatura média para outubro de 2026. Fonte: INMET

O total de chuva durante o ciclo, porém, não explica sozinho o rendimento. A mesma referência técnica descreve resultados em que volumes próximos de 700 milímetros não asseguraram produtividade elevada porque a água foi mal distribuída, sobretudo na fase reprodutiva. A germinação e a emergência também estão entre os períodos sensíveis à disponibilidade de água.

Essa relação dá sentido ao alerta atual para Mato Grosso: uma chuva isolada pode abrir oportunidade de semeadura sem assegurar umidade suficiente nos dias seguintes. O INMET destaca o acompanhamento das previsões de tempo e da água no solo para identificar as janelas mais favoráveis à implantação da safra.

A próxima atualização mensal do diagnóstico do El Niño pela NOAA está prevista para ser publicada amanhã, 8 de outubro. Ela atualizará a avaliação do Pacífico; as condições de cada lavoura continuarão dependendo da chuva, do solo e das temperaturas locais.

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Foto de Vicente Delgado

Sobre o autor

Vicente Delgado

DRT 2364/MT
Editor-Chefe e Fundador24+ anos de experiência

Jornalista e fundador do Agronews, atua desde 2002 em produção audiovisual e cobertura do agronegócio brasileiro, com foco em commodities, política agrícola, pecuária e eventos do setor.

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