O mercado brasileiro da soja iniciou a quarta-feira (27) com um cenário de sinais mistos. Enquanto os contratos futuros em Chicago fecharam em baixa no pregão de terça-feira, o mercado físico nacional se mantém firme, sustentado pelo dólar em R$ 5,03 e pela demanda aquecida nos portos. Ao mesmo tempo, os custos de produção para a safra 2026/27 disparam em Mato Grosso, acendendo um alerta sobre a rentabilidade do produtor na próxima temporada.
Esse combo de fatores desenha um cenário de atenção para quem comercializa soja no Brasil. A ponta vendedora resiste em abaixar os preços, amparada pelo câmbio favorável, enquanto a indústria e as tradings ajustam suas ofertas ao ritmo dos negócios no porto. No centro dessa equação, o produtor mato-grossense enfrenta a mais dura realidade de custos da última década.
Chicago recua com ajustes técnicos e pressão sobre o farelo
Na Bolsa de Chicago (CME Group), os contratos futuros da soja com vencimento em julho fecharam a terça-feira (26) cotados a US$ 11,86 por bushel, uma queda de 10,50 centavos de dólar, ou 0,88%, na comparação com o pregão anterior. O contrato para novembro, referência para a safra norte-americana, recuou 7,50 centavos e fechou a US$ 11,80 por bushel.
O movimento de baixa foi puxado principalmente pelo segmento do farelo de soja, que caiu 0,99% no contrato julho, para US$ 328,60 por tonelada curta. O farelo acumula pressão sazonal com o avanço da colheita na Argentina, que deve impulsionar a oferta global do derivado nas próximas semanas.
O óleo de soja seguiu trajetória oposta e subiu 0,51% no contrato julho, cotado a US$ 0,7436 por libra-peso. O avanço foi sustentado pela demanda firme do biodiesel nos Estados Unidos e pela valorização do petróleo no mercado internacional, que eleva a atratividade dos biocombustíveis.
Dólar a R$ 5,03 dá suporte ao mercado físico brasileiro
A despeito do recuo em Chicago, o mercado físico brasileiro de soja opera com estabilidade na maioria das praças acompanhadas pelo Cepea. O Indicador ESALQ/B3 para o porto de Paranaguá fechou a R$ 129,47 por saca de 60 kg, com leve variação negativa de 0,34% sobre o dia anterior. O Indicador Cepea/Esalq para o Paraná ficou em R$ 123,48 por saca, praticamente estável, com variação de apenas 0,02%.
O dólar comercial opera a R$ 5,03, com alta de 0,18% no pregão. Esse nível de câmbio funciona como um piso para os preços internos, uma vez que a soja brasileira é precificada em dólar no mercado internacional. Quanto mais valorizada a moeda norte-americana, maior o equivalente em reais recebido pelo produtor no momento da venda.
Nas principais praças do país, a soja disponível manteve preços estáveis. Em Sorriso (MT), a saca de 60 kg ficou em R$ 103,50. Em Não-Me-Toque (RS), a referência foi de R$ 113,00. No Oeste da Bahia, o preço alcançou R$ 115,75. No porto de Santos (SP), a soja disponível foi cotada a R$ 132,00 por saca, a maior referência entre as praças monitoradas e com alta de 0,76%.
Custos de produção disparam em Mato Grosso e pressionam rentabilidade do produtor de soja para a safra 2026/27, aponta IMEA
Custos de produção disparam em Mato Grosso e preocupam produtores
O destaque negativo do dia vem dos custos de insumos para a safra 2026/27 em Mato Grosso. Levantamentos do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA) indicam elevação expressiva nos gastos com fertilizantes, defensivos e sementes, pressionando a rentabilidade esperada para a próxima temporada.
O custo total de produção da soja no estado pode superar os patamares registrados nos últimos anos, em um momento em que os preços futuros da commodity não acompanham a mesma trajetória de alta. Em Sorriso, principal município produtor de Mato Grosso, a soja disponível está em R$ 103,50 por saca, conforme o IMEA. Em Rondonópolis, o valor chega a R$ 112,50. Em Primavera do Leste, a referência é de R$ 111,20.
A relação de troca entre a soja e os insumos se deteriora, reduzindo a margem do agricultor. Esse cenário pode influenciar as decisões de plantio para a safra 2026/27, que começa a ser semeada entre setembro e outubro. O produtor mato-grossense, maior produtor individual de soja do país, enfrenta o dilema entre manter a tecnologia para produtividade ou reduzir área plantada para controlar custos.
Perspectivas para o curto prazo
O mercado da soja deve continuar operando sob influência de fatores externos nos próximos dias. O andamento do plantio da safra norte-americana, as condições climáticas no Meio-Oeste dos Estados Unidos e o comportamento do dólar frente ao real seguem como as principais variáveis de curto prazo para as cotações.
No Brasil, a atenção se volta para a demanda chinesa, que tradicionalmente se intensifica a partir de junho, e para os desdobramentos geopolíticos que afetam as rotas de exportação de grãos. A combinação de dólar elevado com prêmios portuários positivos mantém a soja brasileira competitiva no mercado global.
Para o produtor, a recomendação prática é acompanhar de perto as cotações diárias e aproveitar janelas de preço com o câmbio favorável, sem abrir mão de uma estratégia de comercialização escalonada que dilua riscos ao longo da safra.