Uma descoberta feita no Brasil revela um caminho inesperado para enfrentar uma das pragas mais teimosas da soja.
O percevejo-marrom é daqueles inimigos miúdos que cobram caro quando a lavoura parece encaminhada. Ele aparece no fim do ciclo, no enchimento dos grãos, e não precisa mastigar folha para causar prejuízo. Com seu aparelho bucal sugador, perfura o grão e retira nutrientes quando o produtor começa a fazer a conta de chegada.
Agora, uma pesquisa brasileira abre uma fresta nessa briga. Cientistas do INCT NanoAgro, com base na Unesp de Sorocaba, identificaram uma aplicação promissora da bactéria Bacillus altitudinis contra o Euschistus heros. A novidade não está apenas no microrganismo, já conhecido pelo vínculo com crescimento vegetal, mas no modo como ele derruba o inseto.
Em vez de depender da ingestão, o ataque ocorre pelo contato com as patas. Pode parecer detalhe de laboratório, porém é exatamente aí que mora o achado.
A bactéria que pega o percevejo pelo caminho
O contato tarsal acontece quando o inseto pisa em uma superfície onde a bactéria está presente. A partir desse toque pelas patas, o agente biológico consegue agir sem esperar que o percevejo coma algo contaminado. Para uma praga sugadora, esse ponto muda o jogo, porque muitos biológicos tradicionais dependem de ingestão.
O entomologista Ricardo Polanczyk, um dos pesquisadores envolvidos, destacou que a bactéria funcionou por essa via tarsal. Ele também observou que o percevejo possui substâncias antifúngicas e camadas estáticas nas costas, características que dificultam estratégias convencionais de controle. Em outras palavras, mirar a carapaça ou esperar a entrada pela alimentação nem sempre resolve. A pata, nesse caso, virou porta de entrada.
Essa abordagem conversa diretamente com a biologia do inseto. O percevejo-marrom não raspa tecido verde como lagartas fazem. Ele finca o aparelho bucal no grão e suga. Por isso, quando a infestação cresce no talhão, o dano pode aparecer tarde demais, com perda de peso, qualidade menor e menos rendimento na colheita.
Leonardo Fraceto, coordenador do INCT NanoAgro, resume o drama do produtor ao lembrar que a praga atua no fim do ciclo, no enchimento dos grãos, justamente onde se define a possibilidade de lucro. É a fase em que cada quilo conta.
Por que isso chama atenção no campo
Nos ensaios de laboratório, a mortalidade ficou próxima de 80%. O número impressiona porque os químicos usados hoje contra o percevejo costumam entregar algo na faixa de 30% a 40% de controle, como relatou Polanczyk ao comparar os resultados obtidos pela equipe. Ainda é cedo para vender milagre, mas é difícil ignorar uma resposta perto do dobro em ambiente controlado.
O tamanho do problema ajuda a explicar o interesse. Estimativas da Embrapa apontam perdas em torno de R$ 12 bilhões por safra de soja associadas ao percevejo-marrom. Em áreas infestadas, o estrago pode ficar entre 49 e 120 kg por hectare, chegando a duas sacas. Na ponta do lápis, isso pesa no bolso mesmo quando o restante do manejo foi bem conduzido.
A descoberta também entra em um mercado que já deixou de ser nicho. Os biológicos movimentam mais de US$ 13 bilhões no mundo, cerca de R$ 65 bilhões, enquanto os bioinsumos no Brasil devem alcançar R$ 6,2 bilhões em 2025, cobrindo 194 milhões de hectares, pelos dados setoriais da CropLife Brasil. Não se trata mais de curiosidade de bancada. Há demanda, indústria, produtor testando e pressão por ferramentas de menor impacto.
Outro fator pesa. Desenvolver um biológico costuma custar perto de 10% do investimento exigido por uma nova molécula química. Polanczyk lembra que um defensivo químico inédito pode levar mais de dez anos e consumir centenas de milhões de dólares. Para empresas e instituições, isso torna o caminho biológico mais acessível. Para o produtor, pode significar alternativas no manejo integrado, sem abandonar critério técnico.
A pesquisa está em fase de prova de conceito tecnológica. Isso quer dizer que o resultado é real em laboratório, mas ainda precisa vencer etapas duras antes de virar produto comercial. O próximo roteiro passa por testes em casa de vegetação, validações em diferentes regiões produtoras, escalonamento industrial e formulação adequada.
Há um obstáculo especialmente brasileiro nessa história. Em muitas áreas de soja, a temperatura passa de 40°C sobre a planta, e a radiação UV castiga qualquer organismo exposto. Para uma bactéria funcionar porteira adentro, ela precisa sobreviver no ambiente, manter estabilidade e persistir no alvo. Fraceto já apontou que o desafio não é só encontrar um organismo eficiente, mas protegê-lo de calor e sol.
É aí que entra a nanotecnologia, especialidade do INCT NanoAgro. A formulação pode ajudar a blindar a bactéria, melhorar sua permanência na lavoura e ampliar a chance de contato com o inseto. Sem essa etapa, um bom resultado de placa ou arena de laboratório pode se perder quando encontra poeira, vento, chuva, radiação e variações de manejo.
O prazo estimado para um produto comercial fica entre três e seis anos, caso as próximas fases confirmem desempenho, segurança e viabilidade econômica. Parece distante, mas no calendário da inovação agrícola é uma janela relativamente curta. A descoberta brasileira não elimina a necessidade de monitoramento, rotação de ferramentas e decisão técnica. Ela acrescenta uma possibilidade nova para um problema antigo.
Se a bactéria mantiver no campo a força que mostrou no laboratório, o percevejo-marrom poderá encontrar resistência onde menos esperava. Não na boca. Nas patas.
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Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Jornalista e fundador do Agronews, Vicente Delgado acompanha de perto o agronegócio brasileiro, com cobertura de mercados, política agrícola, commodities, pecuária e grandes eventos do setor.