Ameba rara e perigosa que causa infecção cerebral grave foi identificada no Brasil. Saiba os sintomas, riscos e como se proteger ao entrar na água.
Estamos falando da chamada ameba come cérebro, nome popular da Naegleria fowleri. O micro-organismo provoca uma infecção cerebral agressiva e quase sempre fatal. Apesar de rara, a presença confirmada no país muda o nível de alerta, especialmente em regiões quentes e com água parada.
Risco no uso da água
No dia a dia do produtor, água doce é ferramenta de trabalho. Mas é justamente em água morna, parada ou com pouca circulação que essa ameba encontra ambiente favorável. Lagos, rios de trecho lento, açudes e reservatórios naturais entram no radar, principalmente durante ondas de calor.
A infecção não acontece ao beber a água nem pelo contato com a pele. O risco aparece quando a água entra com força pelo nariz, situação comum em mergulho, natação submersa, banho recreativo ou até brincadeiras em açudes e rios. A partir daí, o micro-organismo percorre as vias nasais até atingir o cérebro.
No campo, isso acende um sinal amarelo para famílias que usam represas para lazer, para crianças que brincam em lagoas e também para trabalhadores que se refrescam em cursos d’água após um dia pesado de serviço.
Caso confirmado no Brasil
O alerta ganhou peso depois da confirmação, pelo Ministério da Saúde, de uma morte causada por essa infecção no Ceará. O caso aconteceu em Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza, e envolveu uma criança de pouco mais de um ano de idade, que faleceu em setembro de 2024.
A identificação da causa não foi imediata. A confirmação laboratorial ocorreu meses depois, após exames especializados. Isso mostra como o diagnóstico é difícil e como a doença pode passar despercebida nos primeiros momentos.
A Secretaria Estadual de Saúde do Ceará chegou a conclusão de que a criança foi infectada pela água do açude que abastece o assentamento onde a família vive. “Ao saber que a criança nunca tinha se banhado no açude, a primeira hipótese é de que ela adquiriu a ameba no banho doméstico, na própria casa. Foi feita uma investigação e nós identificamos que a água que abastecia a casa vinha do açude, passava por um tratamento, mas não era adequado“, explica Antônio Lima Neto, secretário executivo de Vigilância em Saúde do Ceará.
Mesmo sendo um evento isolado, a confirmação quebra a ideia de que esse tipo de infecção só acontece fora do país. Para quem vive em áreas rurais, onde o contato com água natural é frequente, a informação precisa chegar clara.
Como a doença avança
Depois que a ameba entra pelo nariz, ela causa a chamada meningoencefalite amebiana primária. É uma inflamação intensa no cérebro, de progressão rápida. Os primeiros sinais costumam surgir poucos dias após o contato com a água contaminada.
Febre alta, dor de cabeça forte, enjoo e vômitos estão entre os sintomas iniciais. Em pouco tempo, o quadro pode evoluir para rigidez no pescoço, confusão mental, convulsões e perda de consciência.
Dados internacionais mostram que há pouco mais de uma centena de registros ao longo de décadas, o que confirma a raridade. Por outro lado, a taxa de mortalidade é muito alta. Casos de sobrevivência são exceção e estão ligados a diagnóstico muito rápido e tratamento imediato.
Cuidados no dia a dia
No campo, prevenir é sempre mais barato do que remediar. Algumas medidas simples reduzem bastante o risco. Evitar mergulhos em água morna parada é a principal delas, especialmente em períodos de calor intenso.
Outra orientação é evitar que a água entre pelo nariz. O uso de clipes nasais durante atividades recreativas em rios e lagoas pode ajudar, assim como manter a cabeça fora da água sempre que possível.
Para famílias com crianças, a atenção deve ser redobrada. Brincadeiras que envolvem submergir a cabeça em açudes e lagoas precisam ser repensadas. Em propriedades onde a água é usada para lazer, vale avaliar alternativas mais seguras ou reforçar a orientação.
Se alguém apresentar sintomas neurológicos poucos dias após contato com água doce natural, a recomendação é procurar atendimento médico imediato e informar sobre a exposição recente. Esse detalhe pode fazer diferença no diagnóstico.
Alerta sem alarme
Não se trata de espalhar pânico. A infecção é rara e não deve mudar toda a rotina do produtor rural. Mas informação correta ajuda a evitar risco desnecessário. Assim como se cuida da água para o gado e da higiene na ordenha, faz sentido cuidar da saúde de quem vive e trabalha no campo.
O calor cada vez mais intenso amplia o uso de rios, açudes e represas para lazer e descanso. Saber onde estão os riscos e como se proteger é parte do manejo moderno da propriedade, que vai além da lavoura e da pecuária.
O campo brasileiro é forte, mas também precisa de atenção aos detalhes que não aparecem na planilha de custos. Água é vida, mas usada com consciência.